Papagaio de Pirata !
_________________________________________

      Olá, pessoal!                     Olá, pessoal!                     Olá, pessoal!                     Olá, pessoal!

Leia agora:

· Entrevista com o Mestre Suassuna

· Entrevista com o Mestre Brasília


Aqui quem fala é o "Papagaio-de-Pirata"; sou aluno do Mestre Dal, que me deu este apelido. Nos eventos, procuro sempre estar próximo dos grandes mestres da capoeira, e participar de suas conversas, sem contudo ser um deles (daí o apelido). Pois bem, nós todos pretendemos que esta página venha a ser um dos pontos de encontro de todos os capoeiristas que desejarem manifestar a sua opinião, ou participar da seção de bate-papos com os Mestres.

Você tem alguma dúvida sobre algum assunto relativo à Capoeira? Pergunte aos Mestres!

A coisa funciona assim: divulgaremos a lista de Mestres que estarão disponíveis, e vocês nos encaminharão (por e-mail) as perguntas que quiserem fazer. Aí, o Papagaio-de-Pirata reunirá todas as perguntas e as levará aos Mestres, e vocês poderão ler aqui as respostas.

        Então, vamos lá!
        Os Mestres à disposição de todos nós, por enquanto, são:

Mestre
Decanio

Mestre
Damião

Mestre
Suassuna

Mestre
Brasília

Mestre
Gato - RJ

Mestre
Dal

São três gerações diferentes de capoeiristas dos mais presentes e atuantes na história da Capoeira mundial.

Decanio e Damião pertencem ao grupo dos mais antigos discípulos de Mestre Bimba; muito cultos, são guardiães da filosofia e da história da Capoeira, fontes de muito saber. Preocupam-se atualmente em resgatar o verdadeiro espírito da Capoeira e transmiti-lo às gerações mais novas.

Suassuna e Brasília, os dois maiores expoentes da capoeira baiana em São Paulo, juntos implantaram definitivamente a Capoeira na maior metrópole brasileira; permanecem, desde a década de 1960, transmitindo às novas gerações o legado que herdaram dos grandes mestres da Bahia - Bimba, Pastinha, Canjiquinha, Waldemar, Traíra, Caiçara, João Grande, João Pequeno, Gato Preto e outros mais. Encontram-se entre os principais responsáveis pela internacionalização da Capoeira baiana e paulista.

Gato - RJ, um dos fundadores e líderes do Grupo Senzala de Capoeira, um dos principais agentes da internacionalização da Capoeira
carioca a partir dos anos 70.

Dal, representa as mais novas gerações de mestres formados na linhagem de Mestre Suassuna, foi membro da equipe de shows, na década de 80, do Grupo de Capoeira Cordão de Ouro, do qual é vice-presidente; é secretário do Conselho Superior de Mestres; advogado, é auditor jurídico da CBC.

(Se você ainda não sabe quem são eles, visite a página dos Mestres, clique na foto escolhida e saiba algo sobre cada um. Em seguida, volte a esta página [Serviços] e pronto...)

- Mande um ou mais e-mails com as suas perguntas para:

capoeiradobrasil@uol.com.br

- Inclua o nome do Mestre a quem a pergunta se dirige.
__________________________________________________________

Perguntas e Respostas

A primeira pergunta é de Cláudio Fonseca de Oliveira, endereçada ao Mestre Suassuna. Eis o texto de Cláudio:

"Certamente, a capoeira jogada hoje não é a do tempo de outrora, e, pelas fitas que vejo, a capoeira antiga era meio rústica, sem uma estética elaborada, certamente era mais mandingueira, mais leal; no entanto, se era belicosa como a de hoje, não sei, tenho minhas dúvidas. Numa entrevista, vi um certo mestre dizer que não existiu capoeira mais belicosa do que a de outrora...

Então, pergunto ao sr.:

- Como vê essa capoeira jogada hoje?

- Como seus alunos conseguiram uma capoeira tão ágil e volumosa, já que o sr. é um mestre antigo?

- O que acha da capoeira do Recôncavo da Bahia, em especial a da cidade de Santo Amaro da Purificação?

Axé, Grande Mestre!"

Resposta do Mestre Suassuna:

          " - Olá, Cláudio. Sua pergunta se desdobra em três ou quatro, e coloca em discussão alguns pontos muito interessantes. Vou respondê-la por partes. Em primeiro lugar, você pressupõe, pelas fitas que viu, que a "capoeira antiga" era rústica e sem recursos, mas isso não é bem assim; para citar um exemplo só, há uma fita em que jogam João Grande e João Pequeno, e ali exibem uma movimentação tão rica e sofisticada que você talvez ficasse assombrado de ver... então, é preciso ter cuidado com essas pressuposições e definições: não é porque um mestre é antigo que não pode conhecer uma técnica sofisticada; a capoeira dos meus discípulos é "ágil e volumosa", como você diz, porque eu sempre me preocupei com estes aspectos, e não só com estes: com a técnica, com a criatividade de cada um dos alunos, com a harmonia e o volume do jogo, etc.

Bem, por enquanto, é só, mas eu prometo voltar ao assunto e complementar a minha resposta. Suas perguntas são muito boas, e eu quero realmente voltar ao assunto.
AXÉ para todos!"

Na Entrevista com Mestre Suassuna (veja a íntegra), que fizemos recentemente, ele complementou sua resposta:

Agora, em relação a essa questão da violência, da belicosidade, eu vou acrescentar: existe uma diferença entre a capoeira ser violenta e ser agressiva. São coisas diferentes. A capoeira era violenta, porque era cheia de armações, cheia de astúcia, e o bote fatal era muito rápido; agora, hoje, ela é agressiva, a violência está escancarada, já tá estampado no rosto do capoeirista que ele quer lhe pegar. A violência era dissimulada, o sujeito iludia e levava o outro à armadilha; a capoeira de hoje expressa a intranqüilidade, a insegurança do capoeirista; ele agride escancaradamente porque não confia em si mesmo. Por exemplo, o caso do revide imediato: se você tá jogando, às vezes, com um aluno, e ele te dá uma pegada, uma rasteira, se você ainda não é competente, você agride, imediatamente, no corpo-a-corpo, na base da porrada, a capoeira se torna violenta, é um temor. Porque o capoeirista, acima de tudo, tem que ser uma pessoa que é agredido sem agredir, é ofendido sem ofender, ele sai e depois dá a resposta. Hoje, a capoeira se perde um pouco nesse aspecto. O capoeira irrita sem se irritar, na mandinga, na ginga, ele irrita o outro, debocha o outro. Ela perdeu na sua essência, na dissimulação; o que ela ganhou: ganhou na técnica, na força, e na agressão.

Papagaio de Pirata: - E sobre a outra parte da pergunta: “Como seus alunos conseguiram uma capoeira tão ágil e volumosa... etc.”?

Mestre Dal: - Sim, porque apesar de seus alunos não praticarem essa capoeira agressiva que está por aí, é inegável que eles também lutam, não se tem notícia de que eles apanham nas rodas em que enfrentam outros capoeiristas. Como é que o senhor conseguiu isso, a capoeira que é arte mas sobrevive no meio da luta, da violência, mantendo a sua identidade?

Mestre Suassuna: - É aquilo que eu disse: a agressividade é diferente da violência. A agressividade é a invasão. Outra coisa é a arte da ilusão, você fazer a sua armação e de repente, no momento exato, soltar o lance rápido e violento sobre o outro. A agressividade é você invadir o direito do outro, é jogar o jogo do forte contra o fraco, o “anabolizado”, o forte que vai pra bater. Mas a capoeira, ao contrário, nasceu da luta do fraco contra o forte. O capoeirista deve saber irritar o outro, e não se deixar irritar. O capoeirista que se deixa irritar pelo outro é um incompetente, é uma pessoa incapacitada para jogar capoeira. Ele que pratique outras modalidades. Pra ele, a capoeira não é o objetivo principal. Se fosse, ele saberia sair na manha, aplicar uma queda, e então dizer "tchau, amanhã lhe vejo..." Agora, meus alunos, desde o Luiz Medicina, nunca foram preparados para expor essa agressividade que está aí. Veja, o próprio Medicina, ele não é nem nunca foi um capoeirista de invadir ou atacar a integridade moral ou física de ninguém. Ele é um capoeirista, e todos os meus alunos; lá, no sul da Bahia, todos jogam capoeira com educação e respeito.

Mestre Dal - E não tem nenhum registro de que alguém tenha suplantado Luiz Medicina na Capoeira...

Mestre Suassuna: - É, eu digo: é sorte minha tê-lo como aluno, porque ele já nasceu capoeirista. Ele transmite lá a capoeira dele, e nunca ninguém foi desafiá-lo ou desrespeitá-lo...

ATENÇÃO: Veja na Entrevista com Mestre Suassuna as respostas a estas e a outras perguntas.

_____________________________________________________________

Da Alemanha, Nadja Kreuchauf pergunta, também ao Mestre Suassuna:

"Prezado Mestre Suassuna:
Aqui na Alemanha, ouvi falar muito do "jogo do miudinho". Até agora não tive a possibilidade de ver esse jogo. A minha pergunta, então, é: onde posso conseguir informações sobre ele? Como o sr. descreveria este jogo?
Agradeço antecipadamente pela resposta. Axé!"

A resposta de Mestre Suassuna é um trecho da entrevista completa que fizemos com ele. Não deixe de ler.

Suassuna: - É, o Miudinho é como a capoeira Regional, hoje: todo mundo tá jogando a perna pra lá e pra cá, nem é a Regional, nem é Angola, mas é uma capoeira; é claro, não é porque Mestre Bimba morreu que ninguém ia mais fazer capoeira: teve que desenvolver, assim como já desenvolveram até o Miudinho. Hoje, tem muita gente fazendo movimentos do Miudinho, que foi um resgate que eu fiz da capoeira antiga, desenvolvi esses movimentos, dentro de seqüências que só na minha academia existem, tem muita gente dando cursos de Miudinho, movimentos do Miudinho, mas não é o Miudinho, como tem muita gente dando curso de capoeira Regional, mas não é a Regional. Então, eu resgatei a capoeira antiga, melhorei, dei uma performance mais adequada para a época de hoje, e procurei trabalhar a movimentação no sentido de ver o limite do corpo humano, no Miudinho, que é jogado num espaço pequeno, de 2 metros de diâmetro, no máximo, obrigando os capoeiristas a se entrelaçarem, passando um pelo espaço do outro, sem se tocarem, sem se ofenderem física ou moralmente.

Mestre Esdras Filho: - Suassuna, sobre isso, eu queria fazer mais uma pergunta: o Miudinho pode ser comparado, tem semelhança, tem algo a ver com o “Jogo de Dentro” de Angola?

Mestre Suassuna: - Bom, em primeiro lugar, o Miudinho não pode ser considerado uma luta na capoeira; é um desenvolvimento dos movimentos plasticamente bonitos que há na capoeira, movimentos que foram esquecidos, tragados pela violência da capoeira, pela força dos atletas, que ficaram muito “turbinados” na prática da capoeira, a influência exagerada do culto ao corpo, ao “bombadão”, então, enquanto outros estavam desenvolvendo o lado mais violento da capoeira, eu achei mais interessante desenvolver esse lado da arte, tentando descobrir e desafiar os limites da maleabilidade do corpo humano; o Miudinho é o Jogo-de-Dentro aperfeiçoado, com variantes, coisas que eu introduzi ou desenvolvi, com meus alunos; é um jogo onde você desenvolve a sua capacidade não exatamente de luta, ou de malícia, mas de realizar movimentos, pra você sentir o que o seu corpo poderia fazer ali; nem a violência, nem a malícia são a meta do Miudinho; é um jogo para ser trabalhado como uma poesia, sem ofensa.

Você pode navegar até a nossa página "Cordão de Ouro", e lá procurar o "Jogo do Miudinho", onde você encontrará mais informações sobre o assunto.

___________________________________________________________________

Papagaio de Pirata: - A pergunta da Juliana é polêmica:

"Nos toques de Benguela, Iuna, Santa Maria, Amazonas, Idalina, Lamento, há canto?
E o hino da Capoeira, é Iuna ou Amazonas?"

Mestre Suassuna: - Xii, isso é muito confuso. Cada mestre diz uma coisa diferente. Não há canto. Mestre Bimba cantava em alguns poucos toques. Há, sim, para cada toque um tipo de jogo, uma expressão diferente de jogo (embora Mestre Bimba quase nunca aplicasse isso, o toque dele é São Bento Grande, é Iuna...). Amazonas, Idalina, Santa Maria, cada um dos mestres dizia que tem um jogo diferente, nuns é jogo de faca, noutros é jogo de floreio, etc... a Iuna era jogo de mestres e formados - e hoje é a aspirina da capoeira (risos), todo mundo toca e joga Iuna só pra acalmar a roda de capoeira, quando a coisa tá "pegando", e não é nada disso...

Papagaio de Pirata: - E na Iuna, é só o berimbau ou tem acompanhamento?

Mestre Suassuna: - Acompanhamento de percussão, só, o pandeiro, porque na Regional não tem atabaque, Bimba não queria.

Astronauta: - É, ele dizia que o pandeiro é o atabaque da capoeira.

Papagaio de Pirata: - A segunda parte da pergunta da Juliana
é Mestre Decânio quem responde.

Pergunta: " - E o hino da Capoeira, é Iuna ou Amazonas?"

Mestre Decânio: - Os primeiros alunos "brancos" de Bimba (assim eram chamados os mais abastados, das classes mais favorecidas, em oposição aos "do mato", os mais pobres...)... eram uns tremendos gozadores, característica dos estudantes daquela época. Uma galera cheia de amantes da vida, ébrios de liberdade, devotados à gozação como conduta e religião! Naquele tempo, Bimba executava, por brincadeira, por chicana, para exibir suas qualidades musicais, pura sacanagem, uma rapsódia monocórdica apropriada para o exercício musical, imprópria para o jogo de capoeira, adequada para a chicana, que Cisnando, por molecagem, apelidou "hino da capoeira". Os moleques brancos arrumaram uma letra safada, nascida do "juízo mal governado", diria Mestre Caiçara, daqueles mestiços culturais, complementaria Fatumbi, ou Jorge Amado:

"... panha laranja nu chão, tico-tico...
... se meu amô vai s'imbora, eu num fico...
... panha laranja nu chão, tico-tico...
... minha tualha di renda, di bico...
... panha laranja nu chão, tico-tico...
... botei pra secá, caiu nu pinicu!..."

... um exemplo clássico do estilo helicino dos capoeiristas... nos vaivéns das frases... a surpresa maliciosa! ... o próprio batismo de hino já é uma gozação, o nome dum símbolo de respeito e veneração numa sacanagem amolecada!

Moral da história:
"Nos assuntos de berimbau, como nos de atabaque,
é preciso ser inteligente
pra não confundir gozação com hino!..."

          As palavras de Bimba devem sempre ser analisadas dentro do contexto, com seus componentes temporal (do momento), social (as pessoas envolvidas) e pessoais de Bimba (humor, antipatia, dissimulação, engodo, etc.).
          Os conceitos, definições e nomenclatura usados pelo Mestre variavam muito. Para entender Bimba é preciso ter convivido, estudar, situar o fato no ambiente do momento, raciocinar e concluir...
          Quando mal humorado, ou por antipatia ao interlocutor, ou simplesmente por pressa ou desatenção, o Mestre truncava ou trocava a resposta e muitas vezes respondia propositadamente de modo incorreto, para não revelar o que não queria ou devia a quem não merecia ou não convinha.
          Só assim podemos entender a informação de que o toque de Santa Maria fosse o hino da capoeira, como se acaso houvesse algum... ou a negação do uso da Cavalaria como toque de jogo duro e restrição do seu emprego a um toque de alerta...
________________________________________________________________
_____

Bem, por enquanto, é só. Se você não ficou satisfeito(a) com as respostas, não
se acanhe, escreva novamente: estamos aqui para esclarecer as suas dúvidas.

Até breve.

________________________________________________________

Recebemos de Mestre Ralil este release, que passamos a divulgar:

Mestre Ralil Salomão:
Fundador e diretor do Centro Cultural de Capoeira RAÍZES DO BRASIL,
uma entidade legal sem fins lucrativos com sede em Brasília-DF, cujo objetivo é a difusão da cultura brasileira e a integração social através da capoeira! A associação foi fundada em 1980 no Distrito Federal, hoje com representantes em vários estados do Brasil e com projeções internacionais: filiais na Venezuela, E.U.A.(Nova Iorque & Califórnia) e Europa! Há vários anos, o grupo Raízes do Brasil vem realizando trabalhos dirigidos com diversos segmentos sociais, de diversas faixas etárias e sexo, incluindo distribuição de cestas básica e aulas de capoeira para crianças carentes e excepcionais do Distrito Federal.



Alguns sites do grupo:

http://www.raizesdobrasil.com.br

http://www.raizesdobr.cjb.net/

http://www.raizesdobrasil.com

http://www.capoeiranyc.com

Axê & Obrigado!

_______________________________________________________________________

| O que é Capoeira? | O Termo Capoeira | O Jogo | Ginga | História | Música |
| Instrumentos | Maculelê | Galeria dos Mestres | Artigos | Entrevistas | Fotos | Novidades | Eventos | Papagaio de Pirata | Compras | A Palavra dos Grandes Mestres |
| Grupos | Dicionário | Legislação
| Links | Home | Fale Conosco
|

©  Copyright Capoeira do Brasil. Todos os direitos reservados.