Olá, camaradinhos! Este é o primeiro de uma série de artigos que o nosso colega Miltinho Astronauta (São José dos Campos) vai publicar aqui. São reportagens e matérias sobre a Capoeira do Vale do Paraíba, palco de expansão da Capoeira paulista desde os anos 70. Divirtam-se com a leitura.

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 Saci-Raiz Negra realiza evento de Angola em São José

Miltinho Astronauta                   
São José dos Campos-SP Fev/2004    

 

Em meados dos anos 90, entre uma de minhas idas e vindas entre São José dos Campos e Piracicaba – minha terra natal – eis que me encontro às duas da manhã na Rodoviária aguardando o ônibus domingueiro para retornar à São José, onde eu estava estudando. Seu Chico, meu pai, muito observador, perguntou: “o que é besouro mangangá?”. Foi então que me dei conta de que ali se encontravam alguns capoeiras da família de Mestre Lobão de quem muitas vezes Mestre Cosmo havia falado. Mestre Paulo dos Anjos até havia composto uma música para os meninos de Lobão, que certamente vocês já ouviram por ai, sem saber exatamente a que se referia:

 Ontem eu fui n´uma festa
Um moleque me chamô pra jogá
Eu que sou desconfiado
Fiquei de lado a repará
O que estava escrito na camisa
Era um tal de Besouro Mangangá
Ê ê ê á Era um tal de Besouro  Mangangá

Besouro Mangangá, além de tornar-se um dos personagens mais cantados nas rodas de capoeira da Bahia – e do mundo – foi também o nome que Mestre Lobão escolheu para sua academia, quando formou-se com Mestre Suassuna, em São Paulo, Capital, no inicio dos anos 70.

Recordo-me que o grupo que encontrei na rodoviária era composto por quatro, talvez cinco capoeiras, sendo que dois deles eram muito parecidos, talvez irmãos. Pela empolgação estavam vindo fascinados do Encontro de Capoeira Angola que estava sendo realizado pelo Mestre Zequinha, naquele final de semana. Eu também estive lá no evento observando e apreciando. Lembro-me de um menino, 10 a 12 anos, aluno de seu Zeca, que entoava emocionado o berimbau, a pedido dos Mestres presentes. Ele cantava uma ladainha do fundo do coração, em toque melodioso e cheio de sentimentos, enquanto seus olhos brindavam à assistência com algumas lágrimas. Foi impossível– confesso – conter-se perante àquela emoção. Momento impar foi também quando vejo um tipo todo especial adentrar à roda para dar sua “volta ao mundo”, com todo o respeito e fundamento. Com seu parceiro ao pé do berimbau, puxou um “panha laranja no chão tico-tico”, fazendo o tradicional jogo do pegar, com a boca, o dinheiro envolto por um lenço de seda. O chapéu de feltro à cabeça e a camisa azul o denunciara: era Mestre Lua de Bobó. Seu parceiro era o Mestre René. O primeiro veio de Arembepe e o segundo de Salvador, ambos angoleiros da Bahia. Mestre Boca Rica também veio abrilhantar o evento.

Mas voltemos ao grupo de capoeiras que aguardavam o ônibus domingueiro para São José dos Campos. Tratava-se do Professor Saci, sua irmã Sassá – ou Sacisa – e demais companheiros. Anos depois (1995), comecei a ouvir falar com certa freqüência do Prof. Saci, e pude saber que ele ensinava Capoeira Angola aos sábados. Na verdade nós tínhamos um amigo em comum, conhecido por mim como “Ratão” (no INPE) e como “Choque” pelo Saci.

Segundo M. Raimundinho, que conhece o Saci a mais tempo que eu, houve uma época (início dos anos 90) que ver o Saci jogando era o mesmo que ver Mestre Cláudio (Feira de Santana – BA) jogar. Segundo o próprio Mestre Cláudio, o Saci foi o que mais se dedicou naquela época a aprender a Angola com ele, em São José dos Campos-SP.

Tanto é que Mestre Cláudio foi embora do  Vale/Litoral Norte e o Saci manteve aquecida sua paixão pela Angola, treinando sempre com seus alunos. Eu, por diversas vezes, tive o prazer de visitá-los aos sábados e domingos, na Vila Paiva.

Entre 2001/2002 o Prof. Saci pede licença ao Mestre Lobão e à Família Besouro Mangangá,  a quem ele declara haver elevada gratidão, e passa a dedicar-se exclusivamente à Capoeira Angola. Em Agosto de 2002, aproveitando a reunião dos Capoeira-Angola do Vale e Litoral, em Jacareí, por ocasião da vinda do amigo e Mestre Jerônimo (JC´s Capoeira Angola School – Sydnei – AUS), o professor Saci é apresentado a todos pelo Mestre Dominguinhos, como novo integrante da Escola de Capoeira Angola Raiz Negra. A Família Raiz Negra (São Sebastião), conta também com os Contra-Mestres Noel, Bonga, Alex e Treneis Bilu e Sueli. Naquela ocasião estavam também presentes o Mestre Zé-Bahiano e seu filho, prof. Cezinha (Rei Zumbi/Caraguá), Mestre Careca (Sampa), Prof. Marajó (NGOLO). Vieram também de Piracicaba-SP para participar meu irmão Cabelo e o capoeira NAL.

Em novembro de 2003 o professor Saci deu-nos o privilegio de participar de seu primeiro “Encontro de Capoeira Angola”, que contou com a presença especial do Mestre Cláudio (Angoleiros do Sertão – Feira de Santana – BA), tendo o Mestre Dominguinhos à frente dos trabalhos da Escola de Capoeira Angola Raiz Negra. E evento foi muito interessante, pois Mestre Cláudio falou sobre diversos assuntos pertinentes à Capoeira Angola:

·          Fundamentos da Angola

·          Formação de Bateria

·          Comando de Roda pelo mestre mais antigo e pelo berra-boi

·          Toques de berimbau

·          A expressão corporal no jogo da angola

·          Denominação dos berimbaus

Muitos outros assuntos foram também abordados, sejam durante a oficina, ou em trocas de informações tipo jogo de capoeira (dois-a-dois).

O evento contou também com a participação especial dos seguintes capoeiras: Mestre Zequinha e Prof. Lampião (Raiz de Angola, Piracicaba), Contra-mestre Silvio (Angoleiros do Sertão, Bauru/Piracicaba),  Mestre Raimundinho e Prof. Marcão (Angola Filhos do Sol – Jacareí), Profs. Josí, Charles, Marajó e Wagner (Angola Ngolo – SJCampos), Prof. Laraziri (Taubaté), Prof. Neguinho (Alo Bahia-SJC), Profs. Bina, Bino, Rico e Teté (Besouro Mangangá), CM Noel, Trenel Sueli, Quinzinho e Ivone (Raiz Negra-São Sebá) e muitos outros capoerias da região. O Prof. Saci apresentou os trabalhos que vem sendo desenvolvendo com seus alunos da Vila Paiva e da FUNDHAS. Por questão de justiça, temos que parabenizar o empenho de toda a equipe do Raiz Negra-SJC, que tanto se empenharam para acontecer o encontro: Sacisa (Sassá), Kbelin, Carioca e demais alunos.

            O Encontro não poderia terminar de forma diferente. O Samba-de-Roda tomou conta do espaço, dando a oportunidade para todos sambarem ao ritmo contagiante do atabaque, pandeiro e berimbau, sob a coordenação de Mestre Cláudio. Esperamos agora o próximo evento do Saci, onde certamente Mestre Cláudio estará fazendo o lançamento do CD recentemente gravado no Rio de Janeiro. Vale a pena Aguardar. Até tivemos uma mostra do conteúdo do CD, onde Mestre Cláudio faz uma Homenagem Especial à Mulher!!! Parabéns Saci.

Axé de Yanga!

 


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