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Durante
três anos, Pastinha teria passado tardes inteiras num velho sobrado da
Rua do Tijolo, em Salvador, treinando a movimentação da arte: meia-lua,
rasteira, rabo-de-arraia, etc. Ali teria aprendido a jogar com a vida e a
ser um vencedor.
Mas a maioria dos capoeiristas que o conheceram afirma que seu mestre foi
Aberrê.
Viveu uma infância feliz, porém modesta. Durante as manhãs freqüentava
aulas no Liceu de Artes e Ofício, onde também aprendeu pintura. À
tarde, empinava pipa e jogava Capoeira. Aos treze anos era o moleque mais
respeitado e temido do bairro. Mais tarde, seu pai, que não gostava da
vadiagem do moleque, matriculou-o na Escola de Aprendizes Marinheiros.
Conheceu os segredos do mar e ensinou aos colegas as manhas da Capoeira.
Aos 21 anos, voltou para o centro histórico, deixando a Marinha para se
dedicar à pintura e exercer o ofício de pintor profissional. Suas horas
de folga eram dedicadas à prática da Capoeira, cujos treinos eram feitos
às escondidas, pois no início do século esta luta era crime previsto no
Código Penal da República.
Em fevereiro de 1941, fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, no
casarão n.º 19 do Largo do Pelourinho. Esta foi sua primeira
academia-escola de Capoeira. Disciplina e organização eram regras básicas
na escola de Mestre Pastinha, e seus alunos sempre usavam calças pretas e
camisas amarelas, cores do Ypiranga Futebol Clube, time do coração de
Mestre Pastinha.
Aos 84 anos, muito debilitado fisicamente e quase cego, deixou a antiga
sede da Academia para morar num quartinho velho do Pelourinho, com sua
segunda esposa, Dona Maria Romélia; a única renda financeira que tinha
era a dos acarajés que sua esposa vendia. Morreu aos 92 anos, cego e
paralítico, no abrigo D. Pedro II, em Salvador, numa sexta-feira, 13 de
Novembro de 1981, vítima de uma parada cardíaca. Pequeno e notável em sua arte, Mestre Pastinha nos deixou seus ensinamentos de vida em muitas mensagens fortes e inesquecíveis como esta:
"Ninguém pode mostrar tudo o que tem. As entregas e revelações
tem que ser feitas aos poucos. Isso serve na Capoeira, na família e na
vida. Há momentos que não podem ser divididos com ninguém e nestes
momentos existem segredos que não podem ser contados a todas as
pessoas."
Pastinha foi “o primeiro capoeirista popular a analisar a capoeira como
filosofia e a se preocupar com os aspectos éticos e educacionais de sua
prática”[1].
Pastinha foi uma das figuras mais queridas de toda a Salvador, por sua
extrema devoção à capoeira. Mesmo depois de idoso, jogava capoeira como
um jovem exímio, executando sua movimentação com perfeição e
agilidade. De Mestre Pastinha, já disseram ser... [1] MESTRE DECÂNIO, A
Herança de Mestre Pastinha, Coleção São Salomão, Salvador,
1996. ©
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