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NOVAS
MANDINGAS LITERÁRIAS: MAIS LEVIANDADES DO ANDRÉ LACÉ, Carlos
Wagner - Astronauta
Caros leitores, em meu trabalho anterior, publicado no site www.capoeiradobrasil.com.br,
fiz uma série de críticas ao livro “A Capoeiragem no Rio de Janeiro
– Sinhozinho e Rudolf Hermanny” (Ed. Europa, dez. de 2002), da autoria
do jornalista André Luiz Lacé Lopes. Minhas críticas permanecem sem
resposta. Ali, externei minha intenção de fazer mais críticas ao livro
do Lacé, por julgá-lo injusto, pretensioso, leviano e repleto de
invencionices sem fundamento sobre o Mestre Bimba, sua Luta Regional e
seus alunos.
Assim sendo, decidi comentar alguns poucos assuntos que deixaram de
ser apreciados na ocasião, bem como outros que surgiram após a publicação
de meu trabalho. Vamos a eles:
André Lacé, à página 81, nas duas últimas linhas do segundo
parágrafo, faz o seguinte comentário, referindo-se ao trabalho do
professor Inezil Penna Marinho: “Penna Marinho dedica seu belo trabalho
ao velho Sinhozinho e a Zuma Burlamaqui...”
Acontece que o prof. Marinho não fez tal dedicatória, e sim a que
se acha transcrita à pg. 96 do livro do Lacé, do seguinte teor:
“Dedicamos este pequeno trabalho aos capoeiras do Brasil (o grifo
é meu), entre os quais Agenor Sampaio (o velho Sinhozinho) e Annibal
Burlamaqui (Zuma), que tanto têm trabalhado para que a capoeiragem não
desapareça”.
Como escritor, Lacé é sui generis, pois desmente a si próprio...
Pra não dizer que tenha havido a intenção de deixar de lado os demais
capoeiristas do Brasil... (Vide Anexo 1)
À página 46, 2º parágrafo, de seu livro, refere-se Lacé à
apresentação de um dos melhores alunos do mestre Sinhozinho de todos os
tempos – André Jansen, que se apresentou no Parque Odeon, em Salvador,
para enfrentar Ricardo Nibbou, aluno de George Gracie (campeão carioca de
jiu-jitsu e catch-as-catch-can). Noticia também que Mestre Bimba abriu o
espetáculo fazendo uma demonstração de seqüências combinadas com seus
alunos. Afirma em seguida que a vitória do carioca (A. Jansen) deve ter
deixado os baianos, especialmente o grande Mestre Bimba, fascinados com o
estilo Sinhozinho.
De novo, manifesta-se aqui a incrível capacidade do André Lacé
para distorcer os fatos à sua maneira.
Primeiro – André Jansen não venceu luta nenhuma, pois houve
empate.
Segundo – Não há registro de fascínio com a exibição do
estilo Sinhozinho feita por Jansen, mas sim o comentário abaixo
transcrito do livro “Bimba é Bamba – A Capoeira no Ringue”, de
autoria de Frederico José de Abreu (o Frede Abreu), pg. 48, onde se
verifica que a luta terminou realmente empatada, e que o André Jansen foi
salvo da derrota pelo “gongo”, no 4º assalto. E mais, a demonstração
feita pelo Mestre Bimba e seus alunos agradou o público pela qualidade do
seu desempenho. São citados como fontes da informação da luta Jansen X
Nibbou e da exibição de Bimba e seus alunos os jornais “O Imparcial”
e “O Estado da Bahia”, ambos de 31/10/1935. (Vide
Anexo 2)
Sobre a luta entre o Hermanny, discípulo do Sinhozinho, e o Perez,
discípulo do Mestre Bimba, declara André Lacé que recebeu do Hermany,
sobre a referida luta, a seguinte resposta – cavalheiresca mas
definitiva: “Isto foi há muito tempo, mas claro que houve movimentação
de luta e troca de golpes, tive a sorte de acertar uns bons tapas e pontapés,
daí, talvez, o problema que ocorreu com o rapaz”.
Essa declaração é inverídica, segundo todos os velhos mestres
discípulos de Bimba. Ora, sabemos do excelente conceito que sempre
desfrutou Hermanny entre os alunos de Bimba, pelo seu gesto narrado no
livro “Conversando sobre Capoeira”, de autoria de Mestre Damião,
narrativa confirmada pelo próprio Perez, atual comandante de aviação
civil aposentado, bem como por Garrido, que também fazia parte do grupo
de Capoeira baiana àquela época. Vamos à transcrição do trecho de
Mestre Damião:
“PEREZ (Aluno do Bimba) X RUDOLF HERMANNY (Aluno do Sinhozinho)
BAHIA
RIO DE JANEIRO
Cumpre ressaltar, a bem da verdade, que esse confronto jamais
deveria ter sido realizado. O Perez, apesar de ser um excelente
capoeirista, um verdadeiro gato (seu apelido), pela sua agilidade e precisão
nos golpes, sofria de vez em quando, durante a luta, de um deslocamento do
braço direito na junção com a articulação do ombro, ao efetuar um
salto ou uma negaça violenta, fato esse que o deixava durante alguns
segundos inoperante, até que ele mesmo colocasse o braço no lugar.
Apesar desse impasse, portou-se com uma dignidade e coragem sem
precedentes. Ao ser escalado para a luta apenas disse: “aceito lutar,
sou eu e pronto.” Em face de tal atitude, só nos restava torcer para que tudo corresse normal, pois tínhamos total confiança em sua agilidade, coragem e presteza na aplicação de golpes e contragolpes. No dia da luta, realizamos o mesmo roteiro de sempre. Ida para o pavilhão no centro do Rio de Janeiro. E às 20 horas lá estavam em seus cantos do ringue, o Perez e o Hermanny, aguardando o soar do gongo e o sinal do juiz para iniciar o combate. Dado o sinal, ficaram os dois jogadores estudando-se nos vais e vens do gingado. Hermanny de início desferiu um martelo. Perez esquivou-se e também desferiu o seu martelo. Hermanny também esquivou-se, defendendo-se do golpe. Em dado momento aconteceu aquilo que todos nós sabíamos possível, mas que de forma alguma desejávamos que ocorresse. O Perez ao esquivar-se em negaça de um golpe, deslocou o braço conforme anteriormente explicitado. Curvou-se um pouco acusando dor, em razão do deslocamento havido. Tentou a todo custo colocar o braço no lugar. Hermanny foi fidalgo a toda prova. Ficou observando mas não bateu. Poderia tê-lo feito tranqüilamente, uma vez que a luta era pra valer, e como ele não sabia do que se tratava, poderia entender como uma “manh” para atraí-lo. O juiz aproximou-se do Perez, tomou conhecimento do que ocorria, suspendeu a luta e du a vitória ao Hermanny por nocaute técnico.”
A seguir, há a Declaração de Perez e Garrido: DECLARAÇÃO Nós abaixo assinados lemos atenciosamente os fatos narrados na 1ª Parte deste livro, e como participantes que fomos dos mesmos, declaramos ser a narração aqui feita a pura expressão da verdade sobre tudo aquilo que ocorreu durante a vinda da Comitiva do Mestre BIMBA e seus alunos para São Paulo/Rio de Janeiro, no período de dezembro de 1948 a janeiro/fevereiro e março de 1949. Cidade do Salvador, 01/01/1995 FERNANDO RODRIGUES PEREZ MANOEL GARRIDO RODEIRO RG Nº 46066-Maer RG Nº 222064/SSPB
Pois
bem, em razão do acima exposto, jamais concebi que Hermanny tivesse sido
capaz de fazer tal declaração – inverídica, debochada e humilhante,
razão pela qual aventei a possibilidade de o André Lacé haver colocado
tais palavras em sua boca, uma vez que, conforme demonstrei em meu artigo
anterior – “MANDINGAS LITERÁRIAS” OU: A CAPOEIRAGEM NO RIO DE
JANEIRO E AS LEVIANDADES DO ANDRÉ LACÉ -, publicado no site www.capoeiradobrasil.com.br,
é prática efetiva dele (Lacé) tergiversar com os fatos, adaptando-os à
sua maneira de pensar a fim de favorecer os seus raciocínios.
Qual não foi entretanto a minha surpresa e de tantos outros
aficionados e praticantes da Regional ao lermos o livro recente de Rudolf
Hermanny intitulado “Gente – Rudolf Hermanny”, lançado pela Ediouro
– Editora Rio, 2003 – e, à página 16, encontrarmos as seguintes
declarações do autor: “Três
dias depois, foi minha vez de topar com um outro chamado Fernando
Rodrigues Perez, mais ou menos do meu porte. Ganhei a luta em pouco mais
de dois minutos, acertando por sorte uns bons tapas e pontapés, tendo o
adversário sofrido uma luxação no ombro.” Tentei conferir essa informação, inquirindo os mestres que assistiram à luta, ou que dela participaram. Manifestaram-se “indignados com mais essa inverdade”. O próprio Fernando Perez enviou-me, direto de Salvador, declaração registrada no Cartório do 10º Ofício, com o seguinte teor: __________________________________________________________ DECLARAÇÃO Eu,
FERNANDO RODRIGUEZ PEREZ, brasileiro, aeronauta aposentado, lendo uma
publicação denominada Coleção Gente do Departamento de Pesquisa
da Universidade Estácio de Sá, editada pela Editora Rio em março de
2003, venho esclarecer a verdade sobre fatos narrados e dirigidos à minha
pessoa.
Na publicação denominada Rudolf
Hermanny, o referido senhor, em entrevista ao organizador senhor Luiz
Carlos Lisboa, na página 13 e seguintes até a metade da página 17,
citou fatos referidos a minha pessoa e outros, relatando o encontro da
luta de capoeira, na cidade do Rio de Janeiro, nos idos de 1949, fatos
estes que não condizem com a verdade.
Os fatos declarados pelo senhor
Hermanny são inverídicos, que, acredito, atendem apenas a sua promoção
pessoal, haja vista que ainda estou vivo para esclarecer qualquer dúvida,
bem como muitos outros companheiros do mesmo grupo, que estavam presentes
a esse encontro para a luta da minha pessoa com o senhor Hermanny.
A versão correta do que ocorreu
naquela luta foi diferente do que está relatado no livro GENTE; a
descrição verdadeira se encontra descrita por quem estava presente e
relata o ocorrido, no livro “Conversando sobre Capoeira” às páginas 17 e 18, de autoria de Esdras M.
Santos (Mestre Damião), que também fazia parte do grupo de capoeiristas
do Mestre Bimba. O livro “Conversando sobre Capoeira” é a verdadeira história da saída da CAPOEIRA
REGIONAL (baiana) pela 1ª vez da Bahia, para SÃO PAULO, onde se exibiu
no Pacaembu, e se apresentou no Rio de Janeiro, a partir de aí, se
espalhou pelo mundo.
Cumpre acrescentar que o senhor
Hermanny, quando nos enfrentamos naquela luta, jamais me atingiu, no início
da luta, como diz, enquanto estudávamos um ao outro, com tentativas de
ataque, ele aplicou-me um “martelo” com o pé direito, ao esquivar-me
com uma “negaça”, o meu braço direito movimentou-se como um pêndulo,
deslocando na altura do ombro, devido a uma ruptura de um tendão ocorrida
três (03) anos antes. Nesse momento o Juiz da luta, vendo o braço fora
do lugar, encerrou a luta, declarando o senhor Hermanny vencedor por
nocaute técnico.
Vale ressaltar que o atleta e lutador
senhor Hermanny teve uma postura digna de um verdadeiro atleta, não se
aproveitou dessa ocorrência para me massacrar, esperou para ver o
acontecido, dando tempo ao Juiz para fazer sua avaliação. No meu
conceito ele teve uma postura digna e honrosa de um verdadeiro atleta.
Finalmente, juro ser esta a expressão
da verdade e pela minha honra, o que acabo de afirmar sobre o fato em
tela, para que fique registrado na MEMÓRIA, como a expressão da verdade.
Fernando Rodriguez Perez Cart. De Ident. Nº 46.066 – Minist. Da Aeronáutica ___________________________________________________________ O que será que houve com o Hermanny? Será que ele foi acometido de “lacezite aguda”, ou seja, impregnou-se também de raiva e frustração contra o Mestre Bimba, sua Regional e seus alunos? Levando em conta a pessoa séria e educada, como Hermanny sempre foi reconhecido, cumpre-me aqui observar o seguinte: - Os pontapés desferidos por Hermanny (mesmo por sorte) não atingiram o Perez e, portanto, não causaram qualquer luxação em seu ombro;
- Então, Rudolf Hermanny: os “tapas” e “pontapés” que você
diz haver acertado por sorte no Perez, são mentirosos,
debochados e humilhantes, além de não condizerem com o seu gesto humanitário
àquela época, narrado por Mestre Damião e transcrito à página 2
acima. Note-se que, no início de sua narrativa, o Mestre Damião acentua
que aquela luta jamais deveria ter sido realizada, explicando em seguida o
motivo;
- Há algo curioso, e que você deve ter lido, na página 208 do
livro do Lacé: “Quem
é Rudolf de Otero Hermanny!? I.
Segundo Ruy Castro (Castro, 2001 – pág. 162) ... ... ...Aos dezessete anos, em 1949, mandou para o pronto-socorro o campeão baiano de capoeira Fernando Perez, com dois minutos de luta.”
É impressionante! Assistir à luta,
Ruy Castro não assistiu, pois nasceu em 1948 (vide orelha do livro de sua
autoria “Estrela Solitária”, sobre a vida do grande Mané
Garrincha); e mais, Fernando Perez nunca foi campeão baiano de Capoeira.
Onde o Ruy Castro leu ou se inventou tais barbaridades, ninguém sabe,
exceto ele...
O que teria se passado com Hermanny
para induzi-lo a apresentar uma versão inverídica, debochada e
humilhante sobre a sua luta com Fernando Perez, nos idos de 1949?
– Frustração por não ter derrotado
um aluno do Mestre Bimba, como fez seu colega Luiz Ciranda ao acertar um
violento pontapé em Jurandir?
– A ausência em seu currículo
esportivo de uma vitória expressiva tal como a de Luiz Ciranda e a presença
de uma inexpressiva vitória por nocaute técnico (desistência) sobre um
aluno do Bimba, na forma descrita à página 2, acima?
– Influência de algum amigo
apaixonado pela Capoeira utilitária do Sinhozinho e inimigo irreconciliável
da Capoeira Regional, em decorrência de sua extraordinária divulgação
em todo o mundo, inclusive no Rio Maravilha?
Bem, Rudolf Hermanny é a única fonte
capaz de esclarecer qual o verdadeiro motivo que o induziu a fazer em seu
livro declarações inverídicas sobre a sua luta em 1949 com o
capoeirista baiano Fernando Rodriguez Perez.
Levando em conta que o assunto é luta, seria interessante tecer
alguns comentários sobre o que se acha explicitado no livro do Hermanny
sobre outras lutas realizadas: Na página
19, diz o autor que no dia 15 de março de 1953 empatou com Guanair Vial,
da Academia Gracie, em luta de vale-tudo realizada durante quase hora e
meia; as informações dadas pelo Hermanny são lacônicas e cingem-se ao
fato de que àquela época havia racionamento de luz e, tendo em vista que
a luta já durava hora e meia, a polícia suspendeu-a, terminando em
empate. Logo depois (págs. 19/20), consta
que Luiz Aguiar (Cirandinha), capoeirista aluno do Mestre Sinhozinho,
enfrentou o lutador Carlson Gracie em luta de vale-tudo e em mais ou menos
cinco minutos acabou exausto e vencido. “Na hora em que Carlson
montou, ele mandou parar e acabou a luta ali mesmo: era bastante malandro
para não apanhar à toa”
(texto de Rudolf Hermanny). Eis aí um caso típico de vale-tudo em que um
lutador de jiu-jitsu venceu um capoeira – no caso, a tão eficiente
“capoeira utilitária” do Mestre Sinhozinho. Utilitária e esperta,
também, pois, quando vê que vai apanhar, pede para parar... Cabe aqui um
comentário sarcástico, à moda de André Lacé: Por que o grande Rudolf
Hermanny não se apresentou para “lavar a honra” da “capoeira utilitária”
do Mestre Sinhozinho? A luta descrita acima vale também
como caso típico para mostrar a certos tolos que acreditam piamente na
invencibilidade da Capoeira como luta marcial praticada em ringue. Fui
pesquisar e, em contato com velhos mestres, deles ouvi que a Capoeira,
como bem disse o Mestre Bimba, não é luta para ringue. Ele subiu ao
ringue, após criar a Regional, a fim de mostrar que a luta por ele criada
era bem mais eficiente do que a Capoeira-Mãe, a Angola, tendo vencido
todos os capoeiristas que se apresentaram para enfrentá-lo. Aliás, sem
qualquer menosprezo, mas voltado exclusivamente para o rigor histórico, o
Mestre Sinhozinho jamais enfrentou nenhum capoeirista. Bimba dizia que a sua Capoeira Regional não é luta para ringue.
Não pode obedecer às regras convencionais estabelecidas no ringue, uma
vez que é luta para situações decisivas. Nessas situações, é briga
no duro, pra valer e, em sua ação, vale tudo (dedo nos olhos, pontapé
ou murro nos testículos, soco na cara, dentada na carótida etc.) Os seus
praticantes aprendem a controlar os golpes, evitando assim situações
desastrosas durante os treinos. A proibição dos recursos citados deixa o
capoeirista completamente à mercê de seu adversário, numa luta de
ringue. Nas págs. 49/50, Hermanny descreve sua luta, em 1953, com
Arthur Emídio, capoeirista baiano radicado no Rio, ex-aluno do Mestre
Paizinho (Teodoro Ramos). Após essa luta, afirma Hermanny que desistiu da
prática da Capoeira. Nas páginas seguintes, faz alguns comentários em
que compara a Capoeira carioca à baiana. A certa altura, diz: “...a
capoeira não tem recurso para lutar agarrado. Na capoeira regional até
inventaram algumas coisas para suprir essa falha e estão discutindo até
hoje de onde tiraram o recurso, embora dissessem no início ‘que era da
própria luta’. Depois, para dizerem que o que faziam era muito
nacional, afirmaram que o recurso provinha ‘do batuque’, apesar de
esse também não sugerir agarramento algum”. Hermanny reflete, neste
trecho, uma das questões mais polêmicas sobre a Regional. Esclareçamos
de uma vez este ponto, sempre de acordo com os velhos mestres da Regional:
Mestre Bimba sempre dizia que a Capoeira é luta de desagarramento. Os tais recursos
“inventados” (Hermanny refere-se obviamente à seqüência de
“cintura desprezada” ou seqüência de balões) destinavam-se a
preparar o capoeira, não para agarrar, mas para desvencilhar-se de
uma tentativa de agarramento, e provieram do judô ou do jiu-jitsu, não do
batuque. Deste, vieram as várias “bandas”, a rasteira em pé (com
batida de coxa), o baú etc.
Não há dúvida de que havia Capoeira
no Rio de Janeiro. O que eu duvido é que o grande Sinhozinho possa ser
legitimamente chamado de capoeirista. O próprio Rudolf Hermanny nos
fornece fundamento para essa afirmação, quando diz, no trecho da
apresentação feita para o livro do Lacé intitulado “A Volta do Mundo
da Capoeira”: “A capoeira (...) que
Sinhozinho ensinava em seu clube (...) era praticada de forma diferente
das outras que se viam por aqui. Não se sabe bem como e onde Sinhozinho a
aprendeu (...). Isso só vem corroborar a tese cada vez mais difundida de
que a “capoeira” de Sinhozinho, que o Lacé e outros cariocas querem
agora “ressuscitar”, sob o nome de “capoeira utilitária” não era
mais que um aproveitamento
da
Capoeira, uma seleção de movimentos isolados, com vistas ao vale-tudo.
O livro do Hermanny é bom... Malgrado
o deslize de sua versão da luta com o Perez, e a citação de algumas
afirmações inverídicas de Lacé sobre a origem da Luta Regional, por
mim rebatidas no artigo “Mandingas Literárias”, publicado em http://www.capoeiradobrasil.com.br,
e ainda não respondidas por Lacé.
A frustração de Rudolf Hermanny como
preparador físico da seleção brasileira no período 1964/66 é bastante
compreensível: Deram a um rapaz inesperiente a missão de preparar
fisicamente uma “turma” heterogênea, composta de vários jogadores
famosos e outros inexperientes, tanto quanto ele (Hermanny). A
“mistura”desse grupo era de fazer inveja a qualquer dirigente que
quisesse “jogar às feras” um seu inimigo. No caso, Hermanny entrou de
gaiato. Inexperiente, até que se saiu bem, caindo fora na hora certa...
Finalmente, encerro este modesto
trabalho exibindo ao prezado leitor a chamada para uma entrevista dada por
Lacé, desta vez à revista italiana MAK, número de abril/maio de 2003,
sobre o lançamento de seu livro “A Capoeiragem no Rio de Janeiro”. A
chamada refere-se ao Lacé como “o Papa da Capoeira no Brasil”... !!!
Ora, se o chamassem de “Papangu”,
“Papa-Fina”, “Papalvo” ou “Papanatas”, tudo bem, estaria tudo
certo, considerando o ridículo a que se tem exposto na condição de
“sabe-tudo” do mundo da Capoeira. ANDRË LACË, “IL PAPA DELLA CAPOEIRA IN BRASILE” – Durma-se com um barulho desses!!!
A propósito, chegou-me recentemente às mãos o texto de duas
outras entrevistas – uma do Lacé e outra do Mestre Bogado –
concedidas a uma revista francesa. Trata-se de mais um prato bem servido
de puro besteirol, coisa que, infelizmente, está se tornando corriqueira.
É tremendamente desagradável ver que alguns enganadores andam pelo mundo
a vender uma imagem completamente distorcida do que seja a Capoeira. Aguardem, estou terminando a tradução, e vocês poderão verificar até
que ponto pode chegar a desfaçatez humana... Até
breve. |