NGOLO, GPEC e CAPOEIRA ANGOLA em SÃO JOSÉ

 Miltinho Astronauta
SJCampos-Abril/2004

“Não estudei pra ser padre
Nem também pra ser dotô
Estudei a capoeira
Pra batê no inspetô”

 

A palavra de ordem no mundo da capoeiragem deveria ser união. Todavia, está cada vez mais difícil encontrar um ponto de equilíbrio entre os interessados no tema.

Há poucas décadas, somente os mestres mais antigos – que na época não eram tão antigos – é que discorriam sobre o assunto. A transmissão oral é maravilhosa. Embora esse método de ensino esteja se perdendo com o tempo, como resultado do ensino em massa e da formação dos megagrupos etc.

O que se observa também nos dias de hoje é que muitas “estórias” foram contadas em escala desproporcional com as histórias reais. E, como “entre dois que não sabem, quem fala primeiro leva vantagem”, aconteceu de diversas versões, algumas fantasiosas, serem contadas e propagadas por este nosso universo maravilhoso da capoeiragem. Um exemplo típico disso é que alguns grupos se autodenominam, desafortunadamente, como os únicos aptos a decidirem sobre os rumos da capoeira, por acreditarem que somente eles detêm os segredos da mesma.

Com tantos “latidos”, seria válido evocar algum latim, seguindo exemplo do livro “A Capoeiragem no Rio de Janeiro”:

Audiatur et aleta pars (Que a outra parte seja também ouvida)

Testis unnus, testia nullus (Uma testemunha, testemunha nenhuma)

Cui prodest? (A quem aproveita?)

Ontem recebi um e-mail-circular no qual Mestre Cobrinha Mansa, sabiamente, questiona alguns pontos que serão discutidos no que estão chamando de “Convenção Internacional de Capoeira” e que, inclusive, propõe a criação de uma “Associação Internacional da Capoeira”. Os questionamentos apresentados pelo Cobrinha corroboram algumas opiniões que ora apresentamos.

Sinceramente, talvez não seja bom encontrar um consenso para a capoeira. Mestre Jerônimo sempre deixa a sua frase “mas, o que é capoeira, anyway?”. Certamente, ao encontrar tal consenso, castrar-se-ia o aspecto multifacetado e a diversidade da capoeira. Seria como se parte dela fosse desprezada, como se não fosse importante. E todos sabemos que é!

Surge então no cenário mundial o interesse crescente pelo estudo da capoeira. Certamente que ela, mandingueira como sempre foi, não facilitará ou sucumbirá a vontades políticas. Tampouco permitirá que hipóteses fantasiosas, unicamente por se tratar de teses doutorais, convençam a todos.

Com os núcleos de estudo e centros de memória da capoeira que se têm formado no Brasil e no mundo, como é o caso do Centro de Memória da Capoeiragem, da Federação Italiana de Capoeira, mantém-se viva a possibilidade de conhecer, com maior profundidade, o que foi, e o que é, realmente, a Capoeira.

Mestre André Lacé tem percorrido por esta seara. Seus últimos artigos, publicados na revista virtual www.forumvirtual.com.br/capoeira.htm, tratam exatamente deste assunto: Grupos de Estudo, Encontros e Discussões.

No artigo do mês anterior, o autor também comenta sobre a “Dança da Zebra” e o Ngolo. Aproveitemos então a deixa para falar do último encontro do Centro Cultural de Capoeira Angola Ngolo (também conhecido, simplesmente, por Ngolo), que aconteceu em novembro de 2003, em São José dos Campos, São Paulo.

O Ngolo é um grupo que descende do Centro Cultural de Capoeira Angola Caxinguelê, também de São José. Desde sua formação, em 2001, o Ngolo vem seguindo o caminho de ir além do treinar e jogar a capoeira puramente física. Os professores Marajó, Charlie Brown, Vagner e a professora Josi consideram que isto seria muito pouco. Parafraseando Marajó, “a capoeira é como o Iceberg, onde a parte que se vê é apenas uma mostra (superficial), mas o substancial encontra-se ainda em águas profundas”. Faz sentido!!

Pensando assim, o Ngolo criou e mantém o Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais – GPEC, que é uma iniciativa aberta a todos os grupos do Vale do Paraíba e Litoral Norte.

Todos os anos o GPEC organiza-se em grupos de dois a cinco estudiosos – com idades que variam da infância à fase adulta - com o objetivo de aprofundar-se tanto quanto possível em alguns temas pertinentes à cultura afro-brasileira, com ênfase no estudo da capoeiragem.

Como estava dizendo há pouco, em Novembro de 2003, no dia 22, o GPEC organizou um encontro com o seguinte título: “Explanação de Trabalhos Temáticos”. O objetivo principal daquele encontro foi apresentar e discutir, com os amigos do Vale e Litoral Norte, os temas estudados durante todo o ano. Cada tema foi previamente estudado em reuniões mensais. Com o encontro de novembro, foi possível trocar experiências com os demais grupos e convidados, sendo que as contribuições foram enriquecedoras para todos os presentes.

Os temas de 2003 foram: “O que é cultura?”,Os itinerários da capoeira”,Os velhos mestres”,Capoeira e religiões afro-brasileiras”,Violência na capoeira”,Capoeira, uma arte libertáriae, finalmente, “Capoeira no futuro.

Os trabalhos foram apresentados pelos próprios integrantes do GPEC, e contaram com os comentários, críticas e sugestões dos seguintes convidados especiais:

    ·         Mestre Damião – aluno de Mestre Bimba, turma de 46, e                 autor do livro “Conversando sobre Capoeira”

·         Luis Carlos Santana – Mestre em História Social/USP e autor do livro “Noite dos cristais”

·         Rui Takeguma – Escritor, Somaterapeuta e idealizador da Federação Anarquista de Capoeira Angola/FACA

·         Mestre Aruanã – Mestre de Capoeira de Jacareí e adepto do Candomblé

·         Mestre Dominguinhos – Mestre de Capoeira do Grupo de Capoeira Angola Raiz Negra de São Sebastião

          Para que tudo não ficasse apenas nas discussões, cada grupo elaborou um texto de 5 a 10 páginas sobre o assunto estudado. Os textos foram organizados em uma brochura de pouco mais de 70 páginas.

Estiveram também participando, na ocasião, os seguintes Capoeiras: CM Noel e Trenel Sueli (São Sebastião), CM Saci e Kbelin (São José), CM Saruê (ERÊ Capoeira-Jacarei), Prof. Marcão (e alunos do M. Raimundinho) e demais convidados.

Os principais projetos do Ngolo estão diretamente voltados ao ensino infantil, atendimento a crianças de periferia e jovens marginalizados. Para conhecer os trabalhos do grupo, vocês podem entrar em contato pelo e-mail abaixo, ou então comparecer às terças e quintas, das 19h00 às 21h30, à rua Siqueira Campos, 483, Centro (sede do CEDECA), em São José dos Campos.

Os interessados em adquirir um exemplar (pelo custo de reprodução e remessa pelo correio), podem entrar em contato pelo email ngolo@itelefonica.com.br.

Para o próximo ano, o Ngolo preparou uma outra forma de conduzir os estudos, e que brevemente apresentaremos neste espaço, com o intuito de incentivar grupos de estudo emergentes, que surgem por esse “mundo afora, camará”.

Em tempo, recebemos, também, solicitações de um relatório de qual foi o resultado da reunião dos angoleiros do Vale/Litoral, e de Sampa, no espaço do Mestre Raimundinho, em Jacareí. É claro que na próxima volta do mundo estaremos tratando, também, desse assunto.

Iê volta do mundo, Camará!


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