|
NGOLO, GPEC e
CAPOEIRA ANGOLA em SÃO JOSÉ Miltinho
Astronauta “Não
estudei pra ser padre
Há
poucas décadas, somente os mestres mais antigos – que na época não
eram tão antigos – é que discorriam sobre o assunto. A transmissão
oral é maravilhosa. Embora esse método de ensino esteja se perdendo com
o tempo, como resultado do ensino em massa e da formação dos megagrupos
etc. O
que se observa também nos dias de hoje é que muitas “estórias”
foram contadas em escala desproporcional com as histórias reais. E, como
“entre dois que não sabem, quem fala primeiro leva vantagem”,
aconteceu de diversas versões, algumas fantasiosas, serem contadas e
propagadas por este nosso universo maravilhoso da capoeiragem. Um exemplo
típico disso é que alguns grupos se autodenominam, desafortunadamente,
como os únicos aptos a decidirem sobre os rumos da capoeira, por
acreditarem que somente eles detêm os segredos da mesma. Com tantos “latidos”, seria válido evocar algum latim, seguindo exemplo do livro “A Capoeiragem no Rio de Janeiro”: Audiatur
et aleta pars (Que a outra parte seja também ouvida) Testis
unnus, testia nullus (Uma testemunha, testemunha nenhuma) Cui
prodest? (A quem aproveita?) Ontem
recebi um e-mail-circular no qual Mestre Cobrinha Mansa, sabiamente,
questiona alguns pontos que serão discutidos no que estão chamando de
“Convenção Internacional de Capoeira” e que, inclusive, propõe a
criação de uma “Associação Internacional da Capoeira”. Os
questionamentos apresentados pelo Cobrinha corroboram algumas opiniões
que ora apresentamos. Sinceramente,
talvez não seja bom encontrar um consenso para a capoeira. Mestre Jerônimo
sempre deixa a sua frase “mas, o que é capoeira, anyway?”.
Certamente, ao encontrar tal consenso, castrar-se-ia o aspecto
multifacetado e a diversidade da capoeira. Seria como se parte dela fosse
desprezada, como se não fosse importante. E todos sabemos que é! Surge
então no cenário mundial o interesse crescente pelo estudo da capoeira.
Certamente que ela, mandingueira como sempre foi, não facilitará ou
sucumbirá a vontades políticas. Tampouco permitirá que hipóteses
fantasiosas, unicamente por se tratar de teses doutorais, convençam a
todos.
Mestre
André Lacé tem percorrido por esta seara. Seus últimos artigos,
publicados na revista virtual www.forumvirtual.com.br/capoeira.htm,
tratam exatamente deste assunto: Grupos de Estudo, Encontros e Discussões.
No
artigo do mês anterior, o autor também comenta sobre a “Dança da
Zebra” e o Ngolo. Aproveitemos então a deixa para falar do último
encontro do Centro Cultural de Capoeira Angola Ngolo (também conhecido,
simplesmente, por Ngolo), que aconteceu em novembro de 2003, em São José
dos Campos, São Paulo. O
Ngolo é um grupo que descende do Centro Cultural de Capoeira Angola
Caxinguelê, também de São José. Desde sua formação, em 2001, o Ngolo
vem seguindo o caminho de ir além do treinar e jogar a capoeira puramente
física. Os professores Marajó, Charlie Brown, Vagner e a professora Josi
consideram que isto seria muito pouco. Parafraseando Marajó, “a
capoeira é como o Iceberg, onde a parte que se vê é apenas uma mostra
(superficial), mas o substancial encontra-se ainda em águas profundas”.
Faz sentido!! Pensando
assim, o Ngolo criou e mantém o Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais
– GPEC, que é uma iniciativa aberta a todos os grupos do Vale do Paraíba
e Litoral Norte.
Como
estava dizendo há pouco, em Novembro de 2003, no dia 22, o GPEC organizou
um encontro com o seguinte título: “Explanação de Trabalhos Temáticos”.
O objetivo principal daquele encontro foi apresentar e discutir, com os
amigos do Vale e Litoral Norte, os temas estudados durante todo o ano.
Cada tema foi previamente estudado em reuniões mensais. Com o encontro de
novembro, foi possível trocar experiências com os demais grupos e
convidados, sendo que as contribuições foram enriquecedoras para todos
os presentes. Os
temas de 2003 foram: “O que é cultura?”, “Os
itinerários da capoeira”,“Os velhos mestres”,“Capoeira
e religiões afro-brasileiras”,“Violência na
capoeira”,“Capoeira, uma arte libertária”
e, finalmente, “Capoeira no futuro”. Os
trabalhos foram apresentados pelos próprios integrantes do GPEC, e
contaram com os comentários, críticas e sugestões dos seguintes
convidados especiais:
·
Mestre Damião – aluno de Mestre Bimba, turma de 46, e
autor do livro “Conversando sobre Capoeira” ·
Luis Carlos Santana – Mestre em História Social/USP e autor do
livro “Noite dos cristais” ·
Rui Takeguma – Escritor, Somaterapeuta e idealizador da Federação
Anarquista de Capoeira Angola/FACA ·
Mestre Aruanã – Mestre de Capoeira de Jacareí e adepto do
Candomblé ·
Mestre Dominguinhos – Mestre de Capoeira do Grupo de Capoeira
Angola Raiz Negra de São Sebastião
Para que tudo não ficasse apenas nas discussões, cada grupo
elaborou um texto de 5 a 10 páginas sobre o assunto estudado. Os textos
foram organizados em uma brochura de pouco mais de 70 páginas.
Os principais projetos do Ngolo estão diretamente voltados ao ensino infantil, atendimento a crianças de periferia e jovens marginalizados. Para conhecer os trabalhos do grupo, vocês podem entrar em contato pelo e-mail abaixo, ou então comparecer às terças e quintas, das 19h00 às 21h30, à rua Siqueira Campos, 483, Centro (sede do CEDECA), em São José dos Campos. Os
interessados em adquirir um exemplar (pelo custo de reprodução e remessa
pelo correio), podem entrar em contato pelo email ngolo@itelefonica.com.br. Para o próximo ano, o Ngolo preparou uma outra forma de conduzir os estudos, e que brevemente apresentaremos neste espaço, com o intuito de incentivar grupos de estudo emergentes, que surgem por esse “mundo afora, camará”. Em tempo, recebemos, também, solicitações de um relatório de qual foi o resultado da reunião dos angoleiros do Vale/Litoral, e de Sampa, no espaço do Mestre Raimundinho, em Jacareí. É claro que na próxima volta do mundo estaremos tratando, também, desse assunto. Iê volta do mundo, Camará!
|