VAMOS
GINGAR CURTO, CAMARADO!
Fixando-me outro dia em uma foto do extraordinário Mestre Bimba impressa na contracapa do disco Capoeira Regional, na qual ele se acha ensinando um aluno a gingar, bem como relendo o livro do Mestre Decânio A Herança de Mestre Bimba Lógica e Filosofia Africanas da Capoeira, que considero a Bíblia da Capoeira Regional, deu-me um estalo na cuca e passei a pensar em qual o motivo que levou os Mestres contemporâneos a consentirem que seus alunos aumentassem desproporcionalmente o tamanho do passo do gingado.
Recordei-me
de
que, quando aluno do Grande Mestre, lá pelos idos de 1946/47 e 48, ele
ensinava que a distância do passo do gingado é a mesma do passo normal
com que a pessoa anda.
E
acentuava que o gingado não é puladinho e sim executado com os pés
arrastando no chão.
Não
precisa ser profeta para verificar que executando corretamente o gingado
na forma explicitada pelo velho Mestre, o capoeirista adquirirá um equilíbrio
perfeito, executando com maior agilidade os reflexos e negaças, e também
com invulgar eficiência e esforço mínimo os golpes, contragolpes e
demais movimentos da Capoeira.
Um outro detalhe importante é o afastamento excessivo entre os
capoeiristas durante o jogo. Reparem que eu disse jogo e não
luta. E este afastamento lamentavelmente é gerado pelo tamanho
desproporcional do passo do gingado.
É
interessante salientar que a beleza e eficiência da Capoeira consiste no
fato de os seus praticantes jogarem próximos um do outro, gingando curto
com bastante molejo de corpo, executando com precisão a seqüência de
golpes e contragolpes, as negaças e saltos da luta, numa sincronização
perfeita dos movimentos, sem que se atinjam, e obedecendo rigorosamente à
cadência do toque do berimbau.
A exibição circense de saltos ornamentais, acrobáticos e golpes desferidos no ar como se se pretendesse atingir um adversário imaginário, bem como rodopios com a cabeça colada ao chão, embora sejam deslumbrantes, nada têm a ver com o verdadeiro jogo da Capoeira.
Gente,
não seria uma boa tentar uma voltinha às origens?...
* * *
Mestre Damião (Esdras Magalhães dos Santos), 53 anos de Capoeira, ex-aluno do famoso Mestre Bimba, foi o primeiro mestre a ensinar Capoeira aos paulistas (Academia do Kid Jofre, anos 1950/51). É autor do livro Conversando sobre Capoeira, que ele próprio editou, e que se constitui num documento histórico a respeito da implantação da Capoeira em São Paulo e Rio de Janeiro.
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