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Artigo
do “EU VI, EU VI, EU VI GANGAZUMBA TRAINDO ZUMBI…” Enfim, começa-se
a escrever sobre a história da capoeira em São Paulo. Apresentam-se os
precursores (veja Revista Capoeira, nos. 3 e 4), heróicos
desbravadores – os “meninos de Bimba”, como ficaram conhecidos, que
prepararam a vinda do “rei da Capoeira” para mostrar a luta nacional aos
paulistas e cariocas; apresentam-se também depoimentos dos pioneiros
remanescentes, responsáveis pela instalação definitiva da capoeira em São
Paulo; revelam-se episódios até agora desconhecidos, reafirma-se a convicção
de que foi a partir da instauração definitiva da capoeira em São Paulo que
ela enfim “floresceu e se transformou no mais promissor produto cultural
brasileiro de exportação”. Imaginemos que
um astronauta, um visitante alienígena se aproximasse cá da Terra e que aqui
pousasse sua nave, a fim de nos conhecer e a nossas práticas culturais.
Imaginemos que, em sua aproximação, o astronauta e sua nave tenham apontado as
antenas em nossa direção e captado vibrações emanadas de eventos
capoeirísticos,
vibrações transformáveis em imagens e sons, e que ele tenha “visto”, por
exemplo, a grande festa de batizado e troca de cordões do Grupo Cordão de
Ouro, realizada a 10 de outubro de 1998, no ginásio de esportes do Pacaembu.
Teria então decidido conhecer de fato a capoeira. Como bom
investigador, nosso alienígena teria visitado as bibliotecas da cidade, em
busca das obras existentes sobre a capoeira paulista. Pronto! É aí que mora o
perigo. Nosso astronauta muito provavelmente leria, em primeiro lugar, “O que
é Capoeira”, de mestre Almir (ou Anande) das Areias; depois, “O Mundo
de Pernas Para o Ar”, da professora Letícia Vidor de Sousa Reis. E, de quebra,
leria em “Capoeira – Os Fundamentos da Malícia”, de mestre Nestor
Capoeira, o trecho referente à capoeira paulista (o que mais há para se ler
sobre o assunto “Capoeira paulista” que tenha sido publicado pelas grandes
editoras do país?). Constataria também que os dois últimos títulos citados
acima tomam o primeiro (o de mestre Almir das Areias) como referência
fundamental, e o desenvolvem. Leitura
suficiente para desorientar nosso visitante alienígena. Limitando-se a esses
textos, não compreenderia as imagens que vira do grande evento de outubro de
1998. E o que vira ele? Teria visto o grande mestre Suassuna comandando um espetáculo
magnífico, o mais importante acontecimento cíclico da capoeira em todo o
mundo, pois se trata da festa de batizado e troca de cordões dos discípulos
deste que é talvez a maior expressão viva da capoeira brasileira e mundial, um
dos maiores mestres que a história da capoeira já conheceu; espetáculo
imponente, reunindo mais de 3 mil pessoas, verdadeiro painel nacional e
internacional daquilo que há de melhor no trabalho da capoeira. Teria visto o
trabalho dos mestres Ponciano e Zé Antônio (Cordão de Ouro de Guaratinguetá)
junto aos deficientes físicos e mentais da APAE; teria conhecido os
representantes do trabalho de mestre Zé Paulo (Cordão de Ouro de BH),
recuperando da marginalidade e do crime os meninos das favelas de Belo
Horizonte, transformando-os em líderes, educadores, professores de capoeira;
trabalhos sociais de importância incomparável. Teria visto os bambas de mestre
Suassuna a jogarem a Capoeira Regional, a Angola e também o “Miudinho”,
estilo criado e desenvolvido por mestre Suassuna e que consagra a capoeira de São
Paulo, mescla de Angola e Regional. Teria visto, enfim, mestres de vários
grupos diferentes, de todo o Brasil e do exterior, a tratarem o mestre Suassuna
com amizade e reverência, respeito e reconhecimento pela grandeza de seu
trabalho. E o que é o
trabalho de mestre Suassuna? Suassuna escolheu para si o maior dos desafios:
implantar a capoeira em São Paulo, a maior das metrópoles brasileiras, ponto
nevrálgico da economia e da cultura do país. Enfrentou dificuldades terríveis,
mas em pouco tempo polarizou em torno de si e de seu trabalho todos os
capoeiristas de São Paulo, que andavam dispersos. Na academia da rua das
Palmeiras, mestre Suassuna, junto com seu amigo e parceiro mestre Brasília –
outro dos precursores, outro capoeirista de excepcional valor – realizavam
espetáculos magníficos. Foi o período conhecido como o do “Consulado
Nordestino”, quando Suassuna recebia, hospedava e apoiava – até mesmo
financeiramente – todos aqueles capoeiristas, mestres ou não, que chegavam em
levas ou sozinhos, vindos principalmente da Bahia (destacaram-se nesse período
os mestres Paulo Limão, Silvestre, Joel, Pinatti, Gladson, Airton Onça, entre
outros). A liderança de mestre Suassuna entre o grupo de São Paulo era
indiscutível. De fato, como
compreender a exuberância da capoeira paulista atual tendo como referência os
textos que sobre ela se escreveram? Almir absorveu
rapidamente todo o jargão do radicalismo revolucionário em voga na sua época.
As forças realmente liberais e democráticas estavam em retração, e o espaço
político estava tomado pelos radicalismos, tanto de esquerda como de direita.
(Aquele tempo deixou seqüelas que ainda hoje nos fazem sofrer…) Quando teve sua
chance, mestre Almir publicou seu pequeno livro e consumou sua “vingança”:
lançou contra mestre Suassuna e demais representantes do grupo de capoeiristas
de São Paulo calúnias difamadoras que, apesar de falsas,
foram tomadas como referência por autores posteriores, alguns acadêmicos,
inclusive. A falsidade dessas “acusações” é patente e fácil de
constatar: basta compará-las com a mais óbvia realidade. A capoeira está aí,
reconhecida como ícone de brasilidade, símbolo de nossa cultura, sim, sem que
se tenha desligado, em momento nenhum, de seu passado, de suas “raízes
negras”. Impossível fazê-lo: basta observar os ritmos das batidas de seus
instrumentos, ou o conteúdo da imensa maioria das canções, que fazem referência
explícita e direta à origem afro-brasileira de nossa arte, e que têm em
mestre Suassuna um dos maiores preservadores e divulgadores; basta observar a
coreografia, a expressão corporal dos capoeiras – falo da capoeira legítima,
que tem “axé”, que tem mandinga: ela traz a marca indelével do negro, sua
expressão, sua gestualidade. Ademais, a capoeira não perdeu absolutamente nada
de seu caráter lúdico. Joga-se hoje a capoeira com a mesma alegria que sempre
a caracterizou. A “essência festiva e libertadora” da capoeira continua
intacta. Não houve “desafricanização”, nem tampouco “dessacralização”,
como quer a profa.
Letícia Vidor de Sousa Reis, pois a capoeira já nasceu leiga e sempre o foi, não
dependendo em nada do candomblé para ser praticada. Assim como
fizera mestre Bimba, mestre Suassuna propôs-se a modernizar a capoeira,
fortalecendo-a como prática desportiva e arte marcial genuinamente brasileira,
sem contudo permitir que ela se desfigurasse e se desvinculasse de suas raízes,
seus princípios, sua beleza e eficiência originais, tão cultivadas pelo
mestre. Conseguiu realizar este intento de forma absolutamente completa, tendo
sido reconhecido por mestre Decânio (o decano da Capoeira Regional Baiana, um
dos guardiães do patrimônio cultural da capoeira brasileira) como “o apóstolo
de mestre Bimba em São Paulo”. Mestre Suassuna
tornou-se a maior expressão viva da capoeira brasileira, um dos mestres mais
respeitados, o “Pelé da Capoeira” (segundo mestre Deputado, um dos mais
atuantes discípulos de mestre Bimba); Suassuna, o “mago, o bruxo da
Capoeira” (segundo “mestre Chapita", filósofo, observador, profundo
admirador e amigo da capoeira). Quanto aos desvios e
desfigurações ocasionados pelo cultivo da violência, eles não provêm da
“esportização” da capoeira, mas sim da ignorância e despreparo de certos
praticantes. As razões da expansão da violência em nossas metrópoles são
muito mais abrangentes do que se pode ingenuamente julgar, e seu cultivo deve
ser combatido de todas as formas. Em todas as ocasiões em que se manifesta
publicamente, mestre Suassuna reitera suas advertências e preocupações,
conclamando todos os capoeiristas no sentido de que abandonem o caminho da arrogância
e do exibicionismo, geradores da violência. O que realmente causa
mais estranheza é o fato de que um texto panfletário, oportunista, equivocado
e repleto de inverdades, como é o trecho do livro de mestre Almir sobre a
capoeira de São Paulo, tenha sido retomado e desdobrado, nesta mesma década de
1990, pela professora Letícia Vidor de Sousa Reis, do departamento de
Antropologia da USP, sem que se tenha feito o menor esforço para verificar a
idoneidade de suas afirmações: assim como muitos outros pioneiros do grupo de
São Paulo, mestre Suassuna está aí, vivo e forte, em pleno vigor de sua atuação,
entretanto nunca foi procurado ou inquirido, para que pudesse se defender das
calúnias que lhe foram assacadas. Mas isso não importa: a força de seu
trabalho fala por si, dispensando defesa, erguendo-se contra qualquer falso
argumento. Mestre Suassuna é história viva, e é mais do que hora de
reconhecer a importância vital de seu trabalho no mundo da capoeira.
AXÉ, GRANDE SUASSUNA,
MESTRE DE TODOS NÓS, AXÉ! São
Paulo, maio de 1999. “Papagaio-de-Pirata” - SP |