Desfigurações da Capoeira - 1

          Para desenvolver o tema proposto, o das desfigurações da capoeira, vamos começar deixando bem claro que concordamos com as declarações dos mestres Suassuna e Acordeon, segundo as quais “é na diversidade que residem a força e a beleza da Capoeira, arte dinâmica que assumiu muitas formas e roupagens através dos tempos, continuamente ‘inventando’ novas tradições. Este tem sido um dos fatores mais importantes para sua sobrevivência”. É isso que queremos dizer quando nos referimos ao “caráter camaleônico” da capoeira. Portanto, ao nos referirmos a “desfigurações”, não estamos defendendo nada que se pareça com uma homogeneização ou “mesmificação”: “a capoeira é uma arte multidimensional. Sua interpretação não deve ser privilégio de um só indivíduo, uma só escola, uma só corrente de pensamento. Nenhum estilo poderá representar a Capoeira como um todo e nenhum mestre poderá ser considerado o dono da capoeiragem. Capoeira é o conjunto de todos nós, com nossas interpretações, verdades e diferenças”.

          Compreendemos e aceitamos estas ponderações ecumênicas de Mestre Acordeon; contudo, vez por outra manifestam-se na capoeira “tendências” variadas, algumas bastante estranhas, que terminam por exigir algum tipo de “ação corretiva” dos mestres mais conscientes e atuantes. Lembro-me de ter ouvido, em agosto de 1996, em São José dos Campos, palestra em que Mestre Itapoan alertava contra um fenômeno que se alastrava dentro da prática da capoeira, e que começava a incomodar: o dos “porradeiros”, expressão criada por aquele mestre para designar um estereótipo que, lamentavelmente, chegou a ser cultivado e fomentado por alguns dos grupos mais conhecidos no Brasil: o estereótipo do “valentão”, em geral lutadores “bombados”, “puxadores de peso”, prepotentes e agressivos, e que invariavelmente transformavam as rodas de capoeira em ringues de vale-tudo, quando não as faziam degenerar em franca pancadaria.

Pois bem: naquela época, que não está muito distante, houve o estímulo de certos "mestres" no sentido de que seus discípulos “jogassem” um “jogo” extremamente agressivo e violento. Aconteceu que tais mestres acabaram por perder o controle sobre seus alunos, e o pau comia solto nas rodas, que se caracterizavam então pelo franco combate, uma capoeira feia, limitada e grotesca, em que se via apenas a intenção de bater e quebrar. Nem é preciso dizer que o aspecto artístico da capoeira desaparecia por completo naquelas “rinhas”. Houve mesmo algumas mortes nesses lastimáveis episódios, veiculadas em toda a imprensa, o que, é claro, constituiu grande prejuízo para a imagem da Capoeira como um todo. Com a grita geral (e mais alguns processos judiciais que se instauraram), os mestres responsáveis por tal desvio tiveram de intervir rapidamente, mudando a “orientação”, fazendo “a bola baixar”.

          Sempre fomos de opinião de que essa mistura de “pitbull” com capoeirista não daria em boa coisa. Os grandes mestres são unânimes em condenar o cultivo da violência, pois sabem do potencial da capoeira como luta: “é das mais violentas e perigosas”.

          Mestre Suassuna vem falando repetidamente daquilo que ele próprio denomina "capoeira clonada", a qual critica, em defesa da espontaneidade, da diversidade, da diferença, e nisso compartilha da posição de mestre Acordeon, segundo o qual cada mestre, cada capoeirista tem um estilo próprio, e é a diversidade que importa, mesmo. 

          São unânimes os Grandes Mestres em apontar explicitamente o fato de que disseminou-se por demais uma certa maneira de “jogar” em que os parceiros não jogam entre si, mas sozinhos, com passadas exageradamente largas, golpes desferidos absolutamente fora de contexto, como, por exemplo, aqueles “pontapés na lua” que se vêem fotografados em algumas capas e matérias das revistas de capoeira...

         Uma vez, perguntei ao Mestre Suassuna o que ele achava dessa esdrúxula capoeira, infelizmente muito disseminada. Ele me disse, em seu estilo mordaz: “ – Pois é, hoje em dia, esses meninos tiraram da capoeira a capoeira, e deixaram essa movimentação que está aí!”...

          O que vem a ser a “capoeira clonada”, à qual se refere Mestre Suassuna?

Ele mesmo nos explicou, num bate-papo informal: Alguns mestres inescrupulosos ou mal-orientados, no afã de fazer fortuna, desenvolveram uma “metodologia” de ensino da capoeira “em série”, para grandes multidões, o que tem limitado muito a capoeira destes praticantes, tornando-a muito igual, homogênea, repetitiva, pobre em movimentação e criatividade. Além disso, esse tipo de "jogo" passou a explicitar a agressividade e a violência, abandonando ou negligenciando um dos traços históricos fundamentais da movimentação de capoeira - a dissimulação da belicosidade.

          Mestre Suassuna pode dizer isso “de cátedra”, com toda a autoridade que lhe confere o fato de, nos seus mais de quarenta anos de atividade, ter formado inúmeras gerações de grandes bambas da capoeira, sem que cada um deles deixasse de exibir um estilo próprio, a marca característica, pessoal, inconfundível. Exemplos? É fácil: é só lembrar o jogo de Luís Medicina, Miguel, Almir das Areias, Aberrê, Lobão, Esdrinhas, Tarzan, Belisco, Risadinha, Tihane, Biriba, Dal, Zé Carlos, Quebrinha, Flávio Tucano, Marcelo "Caveirinha", Sarará, Urubu Malandro,Zé Antônio, Ponciano, Canguru, Espirro-Mirim, Tião, Xavier, Sampaio e tantos outros...

 

          Não poderíamos deixar de citar o mais respeitado entre os Grandes Mestres, conhecido como a maior autoridade mundial sobre a Capoeira do Mestre Bimba, autor de uma série de títulos (Coleção São Salomão) que é considerada como "a Bíblia da Capoeira", o Dr. Ângelo Augusto Decanio Filho, Mestre Decanio, que mantém uma das mais interessantes páginas na Internet sobre Capoeira:

http://planeta.terra.com.br/esporte/capoeiradabahia 

Mestre Decanio tem muito a dizer sobre o assunto. Vejamos:

BARBARIE!

          "Não somente os mais velhos, como eu, Itapoan, Cobrinha Mansa, Jelon, Lua Rasta, Moraes, Jerônimo, Suassuna, Squisito... estão preocupados com a violência que vem assolando a prática da capoeira, notadamente na impropriamente denominada 'regional'. Também a juventude vem se aliando ao nosso apelo à razão e retorno às raízes lúdicas do jogo da capoeira da Bahia...
          Volta-e-meia recebemos mensagens de protesto e apoio à nossa campanha de recuperação dos valores iniciais da capoeira, dentre as quais destacamos a que vai abaixo transcrita na linguagem simples e sincera dum jovem aprendiz."

"Querido Mestre Decânio

Sou Tiago Graziano, a alguns meses lhe escrevi, se lembra?
Não importa, venho por meio desta informá-lo, você que é um dos grandes responsáveis pela capoeira ser o que é hoje e por um futuro da capoeira sem a descaracterização; que um grupinho medíocre de capoeira, se não me engano de Porto Seguro, chamado Grupo Topázio, diz ter modernizado a capoeira pondo nela movimentos de jiu-jitsu, é ridículo ver dois capoeiristas de repente se atracarem no chão e ficarem rolando até que um desista (bata), e até certo ponto engraçado.
O incrível foi que passou ontem (6/8/2000) no programa da Bandeirantes chamado H como uma novidade maravilhosa, ninguém teve a noção de tal barbaridade que estava passando ali.
O impressionante é que o mestre que implantou o jiu-jitsu na roda e todos os integrantes do grupo afirmam que não houve descaracterização na capoeira, mas até mesmo um aperfeiçoamento dela, fazendo que agora com o jiu-jitsu se possa ver o campeão da luta, ou seja, aquele que finaliza primeiro.
Eu peço a você que é meu ídolo; peço que informe mestre Itapoan; e que acredito que lutam para preservar a maravilhosa arte, que tomem providências, sejam quais forem. Estou indignado, por favor.
Obrigado pela atenção,
Tiago Graziano
."

"Os agarramentos são, como sempre foram, proibidos durante a prática da capoeira, especialmente por impedirem a sintonia com o ritmo musical, condição sem a qual não podemos conceber a capoeira baiana." - (Mestre Decanio)


"Nós só não treinamos agarramentos, pois isso deixa
os capoeiristas mal-acostumados, não se preocupando em
jogar ou
se esquivar dos golpes, o que acaba inibindo
o desenvolvimento de suas capoeiras."
- (Mestre Suassuna)

          É fácil concluir com os mestres, desde já, que os agarramentos são incompatíveis com a Capoeira.


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