CAPOEIRA

NO FORUM CULTURAL MUNDIAL

Capoeira e Cultura como elementos de inclusão social

 Miltinho Astronauta
São José dos Campos

Julho/2004

Mestre Marquinhos, em meados do mês de junho,  convidou-me para participar de um debate sobre Capoeira, na Convenção Global do Fórum Cultural Mundial, que ocorreria no Complexo do Anhembi, em São Paulo, de 26 de junho a 4 de julho de 2004.

            Marquinhos, assim como Barrabás, Canseira, Claudinei, Cristiane, Mãe Andréa, Ganga Zumba, Helinho e Valdenor  são amizades resultantes de minha participação na equipe de organização do Congresso Nacional de Capoeira que ocorreu em Agosto de 2003, em São Paulo, sob a regência máxima do camarada Jairo Junior.

Ao ser convidado, a primeira preocupação foi tomar ciência do assunto a ser abordado, e saber como poderia contribuir. O tema sugerido pelos Mestres Marquinhos e Barrabás, do “Órgão Supremo Confederativo do Brasil da Capoeira” – OSACABRAC, foi Capoeira, cultura e identidade como inclusão social.

Na oportunidade do convite, aproveitei para sugerir alguns bons nomes para compor a mesa. O primeiro foi o da angoleira contramestra Janja, que está à frente do “Instituto Nzinga de Estudos de Capoeira Angola e Tradições Educativas Banto”. Tratei também de sugerir o nome do colega Antonio Filogênio Junior, do “Centro de Documentação de Cultura Negra de Piracicaba”. Feitos os contatos, ambos acenaram positivamente.

            Na véspera do evento, a OSACABRAC passou um e-mail circular informando que a mesa, finalmente definida, contemplaria a participação de Mestre Djamir Pinatti, veterano da Capoeira em solo Paulista; de Jairo Junior, coordenador do Congresso Nacional de Capoeira; do jovem pesquisador João Marcus Perelli, coordenador do curso de Pós-Graduação em Capoeira da Universidade UNI ABEL-Rio de Janeiro, da contramestra Janja, do Nzinga, de Paula Cristina da Costa Silva (Paulete), Coordenadora Setorial de Ação Cultural da Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo da Prefeitura Municipal de Campinas, e de Mestre Marquinhos, representando a OSACABRAC.

            A mim caberia  a função de mediador do debate.

Como preliminar, devo admitir que a participação da Capoeira ficou um pouco   prejudicada por alguns impasses organizacionais da coordenação do Fórum. Para começar, a data e o horário do Debate sobre Capoeira só foram definidos em "cima da hora”: 9h30 do dia 1º. de julho, na Sala F do auditório do Anhembi!  Não será necessário detalhar o que isto provocou, da correria geral à simples desistência de alguns bons participantes.

 Realmente, como resultado deste “planejamento”, perdemos três participações importantíssimas: a de Jairo Junior, que se encontrava tratando de assuntos capoeirísticos junto aos Ministérios, da doutoranda em educação Janja Araújo e da Paulete, que não conseguiu chegar de Campinas a tempo de participar.

Na verdade, nós capoeiristas, não temos que aceitar, e tornar normal em nosso meio tais falhas de planejamento. Aliás, o bom exemplo em termos de organização bem que poderia surgir dentro do próprio mundo da Capoeira.

Entretanto, como a Capoeira já está habituada a tais contratempos, tudo ocorreu bem e, felizmente, o resultado foi muito positivo!

ASSUNTOS EM PAUTA

Embora mediador do debate, com a melhor das intenções, tratei de assumir a posição inicial de “incendiário”, colocando algumas perguntas desafiadoras aos demais participantes. Mas, para tanto, um dia antes, prudentemente, submeti as questões, item por item, ao crivo da  jovem dançarina Keila Brilhante, que, para minha felicidade, é minha eterna esposa e companheira. Coube a Keila, além de valiosas sugestões, a redação final das Perguntas de Entrada. Vamos a elas:

·        O que vem a ser, afinal, Inclusão Social e qual a possível participação da Capoeira como elemento viabilizador deste processo, especialmente tendo-se em vista a realidade dos dias de hoje, com uma Capoeira crescentemente globalizada e em plena  Era Multimídia?

·        Será que estamos realmente trabalhando a Capoeira como cultura, ou a estamos usando como instrumento de contracultura, tendo como pano-de-fundo o tal processo de embranquecimento & aburguesamento que ela vem sofrendo?

·        Será que os projetos de Inclusão Social estão, na prática, funcionando mesmo como elemento de inclusão, ou em muitos casos estariam tendo resultados de exclusão, contrariando os objetivos “vendidos” pelos projetos?

·        Será que os projetos de inclusão social estão atingindo seus beneficiários em potencial? Ou na verdade investem-se recursos para todos andarem de Mercedes, mas o final da linha ainda está andando de carroças?

·        Quais projetos de Inclusão Social estão – realmente – dando certo?

·        Será que a mulher-capoeira, especialmente a negra,  está sendo realmente incluída e respeitada dentro do próprio mundo da Capoeira e na sociedade em geral?

·        Será que os grupos e mega-grupos, com maior acesso à mídia e aos orçamentos públicos, estão realmente preocupados com a inclusão social (não estou falando de “projetinhos-vitrine”), ou estariam criando jovens castros de rebeldia, tolhendo-lhes a capacidade de lutar contra as injustiças sociais?

·        Será que a Capoeira, hoje prioritariamente como esporte de alto rendimento, a exemplo do próprio futebol profissional, tem conseguido integrar socialmente os menos favorecidos?

·        Qual a relação entre política pública/emprego dos recursos federais, estaduais e municipais com a Capoeira e demandas sociais?

·        Qual a influência da Ditadura Militar e da era Getúlio Vargas na Capoeira? Será que isto tem resultado em exclusão social, inclusive na Capoeira?

Após fazer tais provocações, os participantes fizeram suas explanações, de forma livre e espontânea.

M. PINATTI  - REPENSANDO A FORMA DE LUTAR PELA CAPOEIRA

Mestre Pinatti, que participa da Capoeira em terras paulistas desde o final dos anos 60, tratou de fazer alguns comentários. Para ele, a Cultura é o Ambiente mais apropriado para a Capoeira, embora ela tenha uma grande densidade de significados. Lamentou o horário inapropriado, pois nove horas da manhã de uma quinta-feira, com todos trabalhando e sem poder se programar, é o próprio exemplo de Exclusão pela Capoeira...

A Capoeira é assunto muito sério, mas o governo e o próprio povo brasileiro não lhes dão a devida importância. A Capoeira alcançou o mundo através de mérito e esforço próprios e sem uma estratégia de exportação. Os países pelo mundo afora estão se  entregando à magia da Capoeira. Ela é artigo de primeira, de primeiro mundo. Mestre Pinatti, repensando as últimas décadas de luta por nossa arte, hoje defende uma Capoeira sem camisa-de-força, sem ginga marcada, sem uniforme aburguesado e militarizado, sem pulinhos tipo ninja-tupiniquim, sem ritmos nazistóides. Ele gostaria de ver uma Capoeira livre como o vento, vendendo cidadania plena, por este mundo afora... Aliás, por falar em livre como o vento, eis que recebo de Bremen (Alemanha), do amigo Pernalonga, informações de que o Vadiando entre Amigos realizado por Mestre Camaleão em Marseille-França foi um sucesso. Alegra-me saber que a Capoeira, em sua forma tradicional, está conquistando os corações do mundo!

 

Voltando ao Fórum, para Mestre Pinatti, a parte da ginástica é excelente para a saúde. A Capoeira contempla muita coisa, entre elas a música e a poesia (que são as letras). Capoeira é uma brincadeira, é um passatempo, é algo lúdico, e historicamente nunca se omitiu politicamente nas principais decisões do Brasil. O Capoeira é um livre pensador e um contestador diuturno, tanto é que colaborou com a queda da Monarquia a favor da implantação da República e outros fatos historicamente importantes.

Nosso futebol é bom porque herdou a malícia e a “catimba” da Capoeira. Com ela, podemos enxergar além do visível. Mestre Pinatti, quase em poesia, declara ser apaixonado pelo ritual da Capoeira Angola:

Uma roda de Capoeira angola

Com um som bem feito

Uma voz de um negrão, encardida (blue note!)

Os instrumentistas tocando em estado de graça

A roda se torna momentaneamente um lugar sagrado

Os dois jogadores viajam

Entram em núpcias com o som

Isto nada mais é que a tentativa

De entrar em sintonia com força superior...

             E Pinatti complementa: Capoeira é algo fascinante!

MSC. JOAO PERELLI – NOÇÃO DE PERTENCIMENTO

Na seqüência, o colega João Perelli fez uma apresentação bem ilustrada, falando desde as definições do que é a Capoeira, ideologias, ícones de nossa história e também discorrendo sobre o tema principal do debate.

            Perelli comentou que, em suas pesquisas, verificou que, até os dias de hoje, não há referências (escritas) de Capoeira nos quilombos e senzalas. No que tem total razão, pois realmente não há nenhum registro sério a respeito. Todavia, gostaria de incluir um comentário: a História do Brasil – e da Capoeira – decisivamente tem sido escrita pela classe dominante, não cabendo aos sucumbidos sequer adicionar algum comentário.

Falou também da Capoeira do Rio Antigo, a Capoeira Utilitária de Sinhozinho, lembrando vários bons capoeiras do passado carioca como Manduca da Praia, Cyríaco Macaco Velho, Juca Reis e, inclusive, o talentoso e saudoso maestro Tom Jobim. Não podemos esquecer também de Plácido de Abreu, Camisa Preta, Satã, André Jansen, Rudolf Hermanny, Kim, Ciranda e outros tantos.

 Para utilizar a Capoeira como meio de Inclusão Social, será sempre de fundamental importância que o mestre-professor entenda, respeite e considere o meio-ambiente ao qual pertencem seus alunos. Esse pertencimento é essencial, ponto de partida para o engrandecimento de cada aluno; ignorá-lo será contribuir para uma total perda de identidade, de valores comunitários locais, da própria história familiar de cada aluno; será, pura e simplesmente, vender um lamentável estoicismo e sonhos alienados.

A Capoeira também é utilizada enquanto fator pedagógico, onde entra o Educar pelo Movimento, o Educar pela Corporeidade e pela Gestualidade, sendo recomendável, portanto, sua  inclusão também na Rede Escolar. Evidentemente, de forma realística e planejada, com adaptações estado por estado, eventualmente, município por município, aluno por aluno. Aproveitando e potencializando as peculiaridades culturais de cada local e de cada um. Este assunto – Capoeira na Escola - foi debatido no SENECA e brevemente estaremos trazendo alguns resultados daquelas discussões.

Ao final de sua fala, Perelli voltou a enfatizar que, para se sentir incluído socialmente, é necessário ter o sentimento de pertencimento, que é algo que vem reforçando, em muitos casos, o respeito entre os que fazem parte de uma mesma Tribo: Capoeiristas. Aliás, Capoeirista seria uma conjunção Capoeira (praticante) + esportista? Desde quando vem sendo empregado este termo?

M. MARQUINHOS – NOVO CONCEITO DE INSTITUIÇÃO

Mestre Marquinhos, conhecido na Capoeira da Zona Norte de São Paulo como Ligeirinho, decidiu sugerir a inclusão da Capoeira no Fórum Cultural principalmente por observar a ausência de participação de instituições ligadas à Capoeira e ao esporte de não-rendimento ou esporte comunitário. Há dois anos elas estão na luta com os diversos ministérios – Cultura, Esporte e Educação, buscando visibilidade e reconhecimento legal para a Capoeira. Mestre Marquinhos comenta: “A instituição e suas parcerias estão dando visibilidade às comunidades e ao esporte genuinamente brasileiro, a Capoeira”. Mestre Marquinhos foi diretor administrativo da ABRACAP e hoje está nesta parceria ABRACAP-OSACABRAC.

Mestre Marquinhos enfatiza que o intuito principal da instituição é assessorar nos projetos, verificar a legalidade enquanto pessoa jurídica. E tudo isto, na verdade, está sendo feito para atender as demandas sinalizadas pelos ministérios com que a OSACABRAC tem trabalhado em conjunto, sempre buscando atender às comunidades que desenvolvem projetos com o esporte de não-rendimento.

COMPRA-COMPRA NO DEBATE

            Houve diversos questionamentos por parte dos participantes. A Capoeira Silvia Andréa, discípula de Mestre Brasília, questionou a disputa entre grupos e academias e as brigas intra e interorganizações, o que, decisivamente, vai contra os objetivos da Capoeira e que tem resultado, de certa forma, em ações inerciais (não sai do lugar) para nossa luta.

Ao comentar tal fato, Mestre Pinatti, que, aliás,  participou da fundação da Federação Paulista de Capoeira (na década dos 70) com Brasília e outros, admitiu que naquela época acreditava-se que a Capoeira esportiva caminharia a passos largos e se consolidaria pelo mundo afora e que este seria o melhor caminho para a Capoeira. Hoje, ele pensa um pouco diferente. A Capoeira, que é algo singular, sui-generis, para ser administrada, tem que ser por uma entidade também singular e não convencional. Não pode ser algo como este sistema federativo, com confederação, federação, ligas etc. As organizações como algo burocrático não têm funcionado, a experiência mostra isto. E vai continuar não funcionando!

O ideal seria ter algo que fosse composto e dirigido por autênticos mestres de Capoeira, tendo-se uma estrutura inovadora, antiburocrática, humana, ágil e flexível, como é a própria Capoeira. Para as instituições funcionarem, não é necessário atuar como empresa, com presidente, cinco vice-presidentes, secretário, tesoureiro, conselhos fiscal e deliberativo. A Capoeira é algo tão simples, é uma cultura, e para gerenciar assuntos pertinentes a ela há que ser algo simples e não algo engessado com vemos hoje em dia.

RODA DE CAPOEIRA NO FORUM

Recebi do Centro de Capoeira Angola Angoleiros Sim Sinhô um convite para participar de uma roda que aconteceu no dia 1º  de julho à tarde, no mesmo Fórum. Afinal, não seria justo que, em um evento desta natureza e acontecendo em nosso Brasil, não houvesse uma boa Roda de Capoeira. Infelizmente, não pude vadiar um pouco, pois já havia me comprometido com outra atividade no período da tarde, em São José dos Campos. Mas tenho certeza que a vadiação correu solta pelo Fórum afora, Camará!

COMENTÁRIOS FINAIS

Corroborando algumas reflexões e sugestões  enviadas por Mestre André Lacé, gostaria de deixar registrado que é impossível promover a chamada “inclusão social” sem se ter educação para todos, emprego para todos, saúde para todos, moradia para todos,  reforma agrária (de verdade) e respeito ao próximo.  

Esperamos que nos próximos eventos desta natureza consigamos mobilizar um público maior de capoeiras e amantes da arte, a fim de participar das discussões, e que nossa Capoeira seja sempre exaltada e respeitada por este povo Brasileiro que muito deve a ela.  Haja vista que a Capoeira nunca se omitiu nas lutas políticas e sociais que ocorreram em nossa história.

Se estivermos pensando em promover inclusão social (expressão que não acredito ser a mais adequada), temos que, por exemplo, quebrar o paradigma de que o pobre faz folclore, o rico faz arte.

Parabéns à OSACABRAC/CIESP por terem garantido este espaço importante no Fórum Cultural Mundial, pois, afinal, o resultado foi positivo e a Capoeira merece estar presente nestes eventos.

Em tempo, enviamos o seguinte texto para constar dos Anais (Memória) do Fórum e para ser incluído da página do Ministério da Cultura:

 

Síntese: A Capoeira é reconhecida mundialmente como um dos mais fascinantes elementos da Cultura Afro-Brasileira. Pode e deve funcionar como instrumento auxiliar do Processo de Inclusão Social, desde que  se resguarde dos previsíveis  riscos de deturpação ou de alienação cultural e social. No Brasil, para começar, deve servir para divulgar, também,  outras manifestações culturais, afinadas com a Capoeira, estado por estado, e, em alguns casos, município por município.  Como patrimônio cultural do mundo, no exterior, especialmente na África, a Capoeira deverá, também, ser enriquecida por manifestações locais que com ela se afinem.

 Frases Emblemáticas:

A Capoeira faz parte da  identidade sócio-cultural  do povo brasileiro.

Não existe inclusão social sem cidadania plena, sem educação, sem saúde, sem emprego e  sem moradia.

O Capoeira é um livre pensador  e um contestador crônico.

A Capoeira nunca se omitiu politicamente nas decisões do Brasil.

A capoeira pode ser utilizada como fator pedagógico de educação.

Palavras Chaves: Capoeira & Capoeiragem, Identidade Nacional, Cultura Brasileira, Pertencimento, Comunidade Imaginada, Alienação Cultural, Cidadania Plena, Inclusão Social, Socialização.

 

Meus camaradas, que nossa Capoeira seja, sempre, Exaltada!!! Paz e Luz ao Mundo...