"O PAPEL DA LUTA REGIONAL BAIANA NA MISCIGENAÇÃO CULTURAL AFRO-BRASILEIRA."

Ângelo Augusto Decanio Filho

          Durante a terceira década deste século, isto é, em torno dos 7 anos de idade, comecei a tomar conhecimento das dificuldades encontradas pelas atividades culturais africanas em Salvador.

          Apesar da mestiçagem da minha origem sangüínea (indígena, africana, portuguesa e italiana) a linhagem cultural era nitidamente branca e pude perceber a repulsa sutil dos mais velhos aos costumes populares afro-brasileiros.

          Os baianos aceitavam de bom grado a presença dos quitutes africanos na dieta e o trabalho humilde dos descendentes dos africanos, porém olhavam enviesado as suas manifestações culturais.

          A proscrição à prática dos costumes e religiões africanas era evidente no samba, considerado como prática de malandros, marginais e desocupados e, sobretudo, na perseguição feroz ao candomblé e à capoeira.

(...)

          Este contraste entre a aceitação culinária e a recusa das manifestações culturais africanas modificou-se após a revolução de 30, graças à chegada a Salvador de dois cearenses, transformados em admiradores dos costumes africanos graças à capoeira e ao carisma de Manoel dos Reis Machado, Bimba.

          Cisnando Lima, apaixonado pelas artes marciais, veio para Salvador a fim de estudar medicina, trazendo o desejo de aprender capoeira, cantada em verso e prosa nas lendas em sua terra natal. Aqui chegando, permaneceu na vizinhança do Interventor Ten. Juracy Montenegro Magalhães, a quem devemos a grande revolução social que reconheceu a cultura africana como legítima em todas as suas manifestações, especialmente a capoeira e o candomblé.

          Cisnando, que privava da intimidade do Interventor Juracy Magalhães, de cuja guarda pessoal tomava parte, propiciou uma demonstração privada da capoeira de Bimba e seus alunos - "brancos", os acadêmicos (a classe dominante, mais abastada, é referida como "os brancos") e "do mato" (que não pertenciam à classe dominante e freqüentavam a roda do Curuzu e posteriormente a da Roça do Lobo) - que provocou a admiração, o respeito e a consideração da autoridade máxima do nosso estado pelo nosso Mestre e pela Capoeira, abrindo o caminho para a demonstração posterior para o Pres. Getúlio Vargas, a qual iniciou a fase final da integração da cultura africana em nosso país.

          Assim é que Bimba, através de Cisnando, chegou a Juracy, que conduziu Bimba e seus alunos a Getúlio, que legalizou a capoeira, reconhecendo-a como a luta nacional brasileira, oficializando posteriormente a sua prática através do Ministério da Educação.

          A aceitação da capoeira como prática legal deve-se portanto ao trabalho e ao carisma de Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, o instrumento que iniciou a derrubada dos preceitos e preconceitos contra as manifestações culturais negras.

          E pela entrada aberta pelo nosso Mestre com a ferramenta social da capoeira saíram da ilegalidade todas as demais práticas festivas, religiosas, profanas e desportivas afro-brasileiras. Inicialmente a liberação, mediante permissão da autoridade policial, das manifestações culturais festivas e religiosas, ainda com limitação de horário (encerramento até as 22:00 horas) para o candomblé, sob pretexto da perturbação do silêncio, sendo incluídas nesta mesma categoria todas as demais atividades similares.

          Um passo importante na implantação da democracia em nosso país, desde que a verdadeira democracia é baseada na igualdade de direitos e deveres entre homens unidos pelo respeito mútuo e amor fraterno.

          Deste modo, Bimba é um marco histórico tão importante quanto o Zumbi dos Palmares na evolução social da cultura negra na sociedade brasileira e da modernização da sociedade brasileira iniciada com a revolução de 1930.

          Estes importantes fatos sofreram modernamente uma multiplicação pela atividade dos mestres contemporâneos, que levaram a todos os recantos do nosso país e ao resto do mundo a mensagem libertadora e democratizante da capoeira.

          É importante enfatizar que, a despeito da evolução da dinâmica da regional, acompanhada lenta e progressivamente pela turma de angoleiros, ao lado da modificação do conteúdo litero-filosófico dos cânticos pela adaptação aos meios culturais em que foi implantada, à própria personalidade dos mestres contemporâneos e ao momento histórico atual do país e do mundo, o toque do berimbau mantém constante o axé da capoeira, fazendo de cada capoeirista uma unidade no conjunto harmonioso da Capoeira.

          Deste modo, cada canto de capoeira é um hino de liberdade, de igualdade e de fraternidade.

Salve Bimba!
Paladino da raça negra!
Libertador da cultura africana!

Texto extraído de “A HERANÇA DE MESTRE BIMBA - Lógica e Filosofia Africanas da Capoeira", da Coleção São Salomão, escrita e editada pelo autor - Doutor Angelo Augusto Decanio Filho, Mestre Decanio. Este livro, a verdadeira Bíblia da Capoeira, deveria ser conhecido e lido por todos os capoeiristas do mundo.

Mestre Decanio mantém página na Internet:  http://planeta.terra.com.br/esporte/capoeiradabahia  
um dos sites de melhor conteúdo sobre a Capoeira.


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