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ANGOLEIRO PAULISTA,
SIM SINHÔ !
Aniversário do Contramestre Plínio
Miltinho
Astronauta
SJCampos - Junho/2004
NO
INÍCIO dos
anos 90, no Estado de São Paulo, existiam apenas alguns raros
grupos dedicados exclusivamente à Capoeira Angola. Nos dias de
hoje, somando-se os grupos da Capital, do Interior e do Vale do Paraíba,
e mais os do Litoral Norte, chegamos, aproximadamente, a uma dezena.
Alguns, com trabalhos consolidados e reconhecidos pela exigente
comunidade angoleira dos demais estados, especialmente Bahia, Rio de
Janeiro e, até mesmo, do próprio Estado de São Paulo. Alguns
outros grupos, ainda em estágio embrionário, mas com bom
potencial.
Os
Mestres Pé-de-Chumbo, Jogo-de-Dentro
e Zequinha fizeram
parte dos pioneiros da fase Pós-GCAP-80 da Capoeira Angola em São
Paulo.
O “Centro
de Capoeira Angola – Angoleiro, Sim Sinhô” – CCAASS -
fundado em 1993 (ou 1995) pelo CM Plínio, também faz parte dos
pioneiros da Angola neste Estado. Grupo que tem como referência os
Mestres Moa do Katendê e
Jogo-de-Dentro. Mestre
Moa, baiano, há bom tempo atua também como “conselheiro” do
grupo. Moa tem pelo menos uma década de atividades em São Paulo,
considerando-se o tempo que aqui viveu, desenvolvendo sempre
trabalhos com música, arte, religião e, especialmente, Capoeira
Angola. Hoje em dia, praticamente, vive na ponte-aérea Bahia-Sampa.
Mestre Moa, juntamente com o CM
Plínio, está à frente do Grupo
Afoxé “Amigos de Katendê”.
Aliás, está mais do que na hora de os capoeiras paulistas passarem
a observar, com mais atenção, o que se “executa” em conjunto
com a Capoeira em outros estados, passando então a estudar e
preservar outras manifestações prima-irmãs da Capoeira.
Plínio Angoleiro, Sim
Sinhô! - O dono da casa
Em 1999, quando comecei a trilhar os caminhos da Capoeira
Angola, sempre orientado pelo saudoso Mestre
Cosmo, tive a sorte de participar de um evento do Angoleiro
Sombra. Isto aconteceu em Santa Rita do Sapucaí, Sul de Minas,
de 22 a 24 de outubro. Na ocasião tive a oportunidade de fazer uma
oficina de Capoeira Angola com o Mestre Jogo-de-Dentro. O Plínio,
que acabara de receber, pelas mãos do próprio Jogo-de-Dentro, o título
de Contramestre, também ministrou aulas naquela oficina. Na ocasião
tive também o prazer de conhecer os Mestres
Bigo (Francisco 45), Alemãozinho e Robinho Angoleiro.
O Robinho é mestre do Grupo de Capoeira Angola Axé Brasil, e
desenvolve os trabalhos na região de Santo Amaro de São Paulo. Aliás,
em 1999, ele organizou uma série de excelentes reportagens em uma
revista de circulação nacional, com mestres da região da Zona Sul
onde tratou de, por exemplo, ressaltar a importância destes mestres
nas décadas dos 70 e 80 na Capoeira daquela região. Mestres Bigo,
Natanael, Limãozinho, Alemãozinho e muitos outros participaram
daquelas reportagens. Aliás, a bem da verdade, o Robinho é um dos
grandes incentivadores do resgate e preservação da memória do Mestre
Angoleiro Paulo Limão.
Voltemos ao Contramestre Plínio!
Mais recentemente, em curso da USP “Capoeira na Academia”
- promovido pela Doutora Letícia Vidor e grande elenco (Bia,
Camila, Joao da Selva etc) - o CM Plínio contou parte de sua história.
Ele conta que começou capoeira em 1979, com um discípulo dos Mestres
Caiçara e Silvestre,
chamado Almir
Vitório. Pouco depois conheceu Mestre
Gato Preto, angoleiro da Bahia, com quem aprendeu capoeira de
1980 a 1983. Naquela época, em São Paulo, não existia muito essa
diferença entre Angola e Regional, como se vê hoje. Capoeira
Angola era só pra “abrir batizados”.
Quando Mestre Gato Preto volta
para Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1984, Plínio
participou então do Grupo Cordão de Ouro de Mestre Suassuna.
Isto aconteceu até os anos de 90/91. Nesta época ele, CM Plinio, já
havia passado dois anos em Salvador trabalhando, onde teve a
oportunidade de treinar durante três meses com o Mestre
João Grande no Teatro Miguel Santana.
De volta a São Paulo, em 1991,
o CM Plínio iniciou um trabalho com o Mestre Moa do Katendê, quem
primeiro lhe estendeu a mão para o desenvolvimento na Capoeira
Angola. Em início de 1993, Plínio é a convidado coordenar um
grupo só de Capoeira Angola para a Somaterapia de Roberto
Freire. Após 1995, o Plínio se separa dos somaterapeutas,
iniciando seu grupo. O núcleo Casa da Soma assumiu o nome de
IÊ, a busca pela pedagogia libertária. O somaterapeuta (de
SOMAIÊ) Rui Takeguma é remanescente do núcleo IÊ de
Roberto Freire e atualmente coordena o IÊ de São Paulo, a União
de Angoleiros Independentes - UAI em Belo Horizonte e participa
da Federação Anarquista de Capoeira Angola (FACA), a qual
ajudou a criar.
Antes de eu conhecer a Capoeira
Angola de Plínio, eu já conhecia parte de seu trabalho, como, por
exemplo, o CD organizado pelo Mestre
Limãozinho (sobrinho do saudoso Mestre
Angoleiro Paulo Limão), no qual Plínio teve participação.
O Terreiro
do CM Plínio exala Axé e dendê. Pudera, pois ele tem na veia a
questão da espiritualidade. Seu campo de mandinga é sempre bem
freqüentado por entendidos no assunto Candomblé, como é o caso do
próprio Mestre Ananias, que diz que Capoeira e Candomblé são
como irmãos.
No
curso da USP, Plínio fez os seguintes comentários: “Para
se entender melhor a capoeira, até mesmo a partir da musicalidade,
o candomblé é uma das formas mais eficientes... é beber da
fonte... é você receber alimento de um mesmo lugar... muitos
capoeiras antigos eram Ogãns e defendiam os Candomblés...”.
Aliás, este assunto - Capoeira e religião afro-brasileira - é um
bom mote!
A Roda-Festa e os convidados
No último dia 6 de maio, o CM Plínio completou mais uma
“volta ao mundo”, e comemorou seu aniversário no próprio Ilê
do Angoleiro Sim Sinhô.
E para vadiá,
digo, variar, estiveram presentes, além dos discípulos de Plínio,
alguns amigos.
De São Paulo, capital, compareceram os Mestres
Ananias, Francisco 45 (Bigo) e Gaguinho
de Pastinha. Também esteve presente o amigo Gil
Gaúcho, do Cativeiro.
Representando a Bahia, a festa contou com a presença do
padrinho do grupo, Mestre Moa do Katendê e do Angoleiro M.
Jaime de Mar Grande (discípulo de Paulo
dos Anjos). Inclusive, Mestre Jaime está passando uma temporada
na Terra da Garoa. Quem sabe teremos sorte e ele fica aqui por
alguns anos.
De Porto Alegre, e com destino final ao SENECA (Campinas),
aportou na Angoleiro Sim Sinhô
o Mestre Ratinho,
que aproveitou a oportunidade para proferir breve palestra sobre a
importância de se lutar contra o sistema CREF-CONFEF. Foi apoiado
por todos.
Aproveitei a ocasião para rever velhos amigos, como Pedrinho,
Azul (Sementes do Jogo
de Angola) e Minhoca (Senhor
do Bonfim – M. Ananias). Tive também o privilégio da companhia
do amigo Beija-Flor, da
Escola de Capoeira Raiz de Angola de M.
Zequinha (Piracicaba). Acompanhando o Mestre Ratinho estava o
amigo e angoleiro Gaúcho, do
Grupo Negaça Capoeira Angola, de M.
Cavaco.
Por falar em Negaça, o grupo
do Mestre Cavaco realiza todo início de mês uma roda para os
amigos que quiserem vadiar. Inclusive, esta roda já está se
tornando tradicional e bem comentada entre os angoleiros e jogadores
de angola da Capital. O pessoal do Vale do Paraíba e Litoral Norte
está se organizando para participar do Axé daquele espaço. Quem
sabe estaremos lá no próximo encontro, dia 3 de Julho, quando o
grupo Negaça completará nove anos de atividades.
O Seminário Nacional de Estudos sobre a Capoeira (SENECA)
Mestre Ratinho veio do Rio Grande do Sul com a missão maior
de participar do SENECA. A exemplo dele, muitos outros mestres,
pesquisadores, e capoeiras em geral caminharam também para Campinas
com o intuito de participar do Seminário. A programação foi bem
extensa e contou com participantes de todos os Estados e até do
exterior, como foi o caso do camarada Mestre
Jerônimo, que
veio da Austrália contar o que é a capoeira na terra do bumerangue
e do canguru...
É claro que um Relatório Completo já está prestes a ser
divulgado pela equipe organizadora, que, apesar de todas as
dificuldades, levou o seminário a bom cabo. Parabéns, por
oportuno, a toda equipe, em especial às Guerreiras Paulete e Letícia
Vidor, que se desdobraram, assim como outros integrantes do GECA,
para fazer o SENECA acontecer. Enquanto aguardamos o relatório e a
“Carta de Campinas”,
faço alguns comentários.
1. Representantes
da CBC e CNC: Mesmo considerando que o encontro foi de
“estudiosos” da Capoeira, observei a ausência dos
representantes da CBC e do CNC. Afinal estas “organizações” são
as que estão dia-a-dia em contato com os Ministérios, lutando
“ombro-a-ombro” – às vezes “peito-a-peito” - para que a
Capoeira seja reconhecida, por lei, de acordo com as necessidades
dos profissionais da Capoeira.
2. Os Grupos
de Trabalho Temático: Os GTTs foram bem elaborados. Talvez
tenha faltado um melhor encaminhamento dos “presidentes” de GTTs
de como seriam conduzidas as discussões. Como seria impossível
participar de mais de um GTT, o pessoal do Vale e Litoral Norte –
ao todo 23 representantes - decidiu dividir a equipe. O pessoal que
participou do GTT história,
corpo, cultura e memória, por exemplo, sentiu que durante certo
tempo alguns participantes estavam tentando enquadrar a Capoeira
como Samba. Vamos ver o
que o Relatório esclarece a este respeito. O GTT
Capoeira e Educação tratou de – ou tentou – discutir as
perspectivas de inserção da capoeira nas instituições de ensino.
Discutiu-se um pouco sobre os projetos implantados ou em implantação
e que contemplam a Capoeira. Outro assunto referente a este tema foi
a questão de conteúdo e metodologia a ser utilizada. Duas questões
principais que não foram respondidas, pelo menos na primeira sessão:
a) Porque a capoeira tem que estar na escola; b) Quem pode dar aulas
de capoeira na escola.
O camarada Alberto de Bauru
pontuou alguns itens interessantes:
- Que capoeira queremos na escola?
- Qual a forma de ensino? “Disciplina opcional?”.
- Qual a visão da Capoeira em
relação à escola e qual a visão da escola em relação à
Capoeira?
- Como o ensino seria
sistematizado?
- Qual a função da escola na
construção do conhecimento?
Um outro camarada, Fausto, militante negro de Campinas, fez
comentários bem interessantes para aquela discussão temática.
Para ele, de maneira direta, “a
capoeira tem que ser ensinada por professores de capoeira,
independente da formação
(filosofia, história...”) e completou: “o
sistema público é a negação do negro e é a negação da
africanidade”.
3. A visão
dos Mestres: Alguns amigos Mestres de Capoeira, não envolvidos
com atividades acadêmicas ou outras áreas de estudo do
conhecimento, deixaram-me preocupado com a visão deles do resultado
do SENECA. Eles retornaram para casa com a seguinte preocupação: Os
universitários estão tomando conta da capoeira. Sabemos o
quanto a Capoeira carece de ser estudada. Mas por que será que
estes mestres estão tão preocupados com isto? E não estão
falando exclusivamente dos formados em Educação Física – este
é um caso "delicado" à parte!
Eu confesso, dada a enorme diversidade de opiniões – às
vezes de interesse – o resultado foi muito positivo.
Pensando bem, recebemos alguns comentários muito interessantes de
alguns capoeiras que revisaram este texto e, dada a importância do
SENECA, acredito que na próxima semana estaremos incluindo mais
alguns pontos, concordantes ou divergentes, e que foram discutidos
durante o seminário. É claro que tudo vai ficar mais bem claro
quando chegar o tão esperado relatório.
Ao GECA, relevem a repetição, representado nas pessoas das
Guerreiras Letícia e Paulete, os nossos parabéns. E já estamos
nos preparando para os próximos encontros que, tudo indica, serão
regionais.
Adeus, Adeus, vamos s´imbora
Para finalizar, gostaríamos de dar os parabéns ao CM Plínio,
não apenas por mais este ano de vida, mas principalmente pela
dedicação, trabalho responsável e seriedade com que vem
desenvolvendo e ensinando a Capoeira Angola da Bahia em São Paulo.
Afinal, parafraseando o próprio Plínio, “São
Paulo tem
Angoleiro,
Sim Sinhô!”.

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