CAPOEIRA ANGOLA EM CDs
Morro do Turano & Mestre Camaleão (RJ/França) e
Periferia de Taboão da Serra & Professor Pernalonga (Sampa/Alemanha)
Miltinho
Astronauta
São José dos Campos
Maio/2004
No
Brasil, como em quase todo o mundo, a base da cultura popular repousa nas
regiões de maior concentração da população menos privilegiada sócio-economicamente.
Em
cada região deste país-continente, as comunidades foram se formando, obviamente, de
maneira diferente. No caso do Rio de Janeiro, o Samba, a
Capoeira e a Pernada Carioca estiveram sempre presentes no Morro – e
no asfalto também! Em São Paulo – Capital, a Capoeira e o Samba se
concentraram nos bairros de periferia.
Há muita coisa em comum entre os morros do Rio e a Periferia de São
Paulo. É nessas áreas que se concentraram as populações mais
criativas, do ponto de vista da diversidade cultural. E não é para menos,
pois as regiões Norte e Nordeste do Brasil têm emprestado seus filhos
para contribuírem com o desenvolvimento sócio-econômico-cultural do
Sudeste do País.
Em
outro artigo, em que tratamos de apresentar a excelente iniciativa da
Escola de Capoeira Raiz de Angola, de Mestre Zequinha, com seu
informativo Vadiando, comentamos sobre um presente que estava sendo
enviado a partir da Alemanha. Para nossa surpresa, recebemos não um, mas
dois presentes.
O
professor Pernalonga (Marcio Araújo), do Grupo de Capoeira
Angola Irmãos Guerreiros (GCA-IG), envia de Bremen, Alemanha, um CD
gravado com a comunidade de Taboão da Serra. Mestre Camaleão,
hoje dando seu vôo do morcego por toda a Europa, envia, de Marseille,
França, um CD gravado com o pessoal do Grupo de Capoeira Filhos de
Angola Brasil. Para informação dos navegantes, Taboão da Serra é
região da periferia de São Paulo – Capital, mais precisamente
na confluência da Zona Sul com a Zona Oeste. Já os trabalhos de Mestre
Camaleão vêm sendo desenvolvidos no Morro do Turano e outras roças
do Rio.
Mas,
hoje, escrevemos um pouco sobre o GCA-IG.
Em
1984, o Mestre Baixinho (José
Eloy de Oliveira) e o CM. Marrom (Ronaldo
Alves de Oliveira) foram formados pelo Mestre Meinha.
Após alguns anos desenvolvendo trabalhos em Taboão da Serra e região, o
GCA-IG passou a dedicar-se exclusivamente à Capoeira Angola. Isto se deu em
1992. Para tanto, Baixinho e Marrom passaram a receber os ensinamentos e
fundamentos de Angola com o Mestre Pé-de-Chumbo, que é um dos
precursores da Capoeira Angola em São Paulo na fase Pós-GCAP-80. Em
setembro de 2003, o grupo realizou seu Primeiro Encontro Internacional,
com as presenças dos Mestres Francisco-45-SP, Virgilio-BA, Pé-de-Chumbo-SP,
Faísca-BA, Ciro-BA, Pernalonga (São Bernardo do Campo-SP), Careca-SP e
os Contra-Mestres Bahia e Jurubeba.
Apesar
de ser formado inicialmente pelo Meinha, o CM. Marrom havia iniciado
Capoeira com o Mestre Zé Boneco, na Associação de
Capoeira Ilha de Marajó, lá mesmo no Taboão. O mesmo aconteceu com seu
pai, Mestre Baixinho. Ambos começaram na Capoeira por volta de 77/78.
Todavia, o Baixinho já tinha aprendido Capoeira anteriormente, com um
baiano, de cujo nome não se lembra.
Além
do Mestre Pé-de-Chumbo, o GCA-IG também recebeu influências dos mestres
Jogo de Dentro, Lua de Bobó, Valmir (FICA) e CM Faísca.
Meu
primeiro contato com o M. Baixinho e o CM Marrom foi em uma roda de
Capoeira Angola do Mestre Careca, na Academia Tchibum, Jardim Bonfiglioli,
em Setembro de 2000. Na ocasião, estavam também presentes os seguintes
mestres e professores: Zequinha (Piracicaba), Alcides (USP-Sampa),
Pernalonga (Taboão), Gil (Rio), Robinho Angoleiro (Santo Amaro-Sampa),
Dominguinhos (São Sebastião), Noel (São Sebastião), Baixinho (Taboão),
Marrom (Taboão), Sueli (São Sebastião), Lampião (Piracicaba), Lambari
(JD Ferreira-Sampa), Djavan (Negaça-Sampa), entre outros. Alguns jogos
marcaram minha memória: Noel e Lambari, Djavan e Pernalonga (se aquele
gancho pega!!), Marrom e Zequinha e Careca com Robinho.
Ontem,
recebi notícias de que o Mestre Meinha, que estava pelas bandas de Espírito
Santo do Pinhal, está de volta à Capital. Brevemente estaremos
registrando também um pouco sobre sua trajetória. Mas, para dar uma
deixa, ele (Meinha) está desenvolvendo um trabalho envolvendo a Capoeira
Angola que aprendeu com o saudoso Mestre Gato Preto (BA).
Voltando
ao Irmãos Guerreiros, além do Baixinho, Marrom e Pernalonga, o grupo
conta com os seguintes professores e trenéis: Pezão, Português, Jorge,
Tijolo, Índio, Corvo, Vaga-Lume, Cunhadinho, Soneca, Beto Branco, DJ,
Curioso, Hulk e Vlademir. Inclusive, em março de 2004, conheci
o excelente trabalho do prof. Tijolo, na COHAB do Educandário, trabalho
este que tem como foco principal as crianças e jovens da periferia.
Falando
um pouco dos dois CDs:
Quem
conhece o Mestre Camaleão e o Prof. Pernalonga sabe que ambos são abençoados
com um canto cheio de magia, dendê e axé. O título escolhido para o CD
do Camaleão não poderia ser outro: Vai na Paz de Deus!
Camaleão é um angoleiro criativo, joga como ninguém, com movimentações
inesperadas e inexplicáveis do ponto de vista físico. Quando joga,
parece estar fazendo com o corpo o que se faz com um novelo de lã.
Desenrola aqui, joga pra lá, dá um nó nos camaradas apenas pelo prazer
de fazer o povo ser contagiado e se divertir. O que realmente acontece!
Como diz Mestre André Lacé, Camaleão é um filósofo nato.
Quando pega a cantar e a falar sobre Capoeira, deixa até “dotô” sem
palavra.
É
de Camaleão a ladainha que critica a regulamentação da capoeira e essa
história de CREF-CONFEF tentando escravizar o Capoeira:
Andam
dizendo por aí
Que uma lei já se formou
Pra regulamentar a Capoeira
Isso é coisa de doutor
Quem elaborou essa lei
Capoeira não jogou
A Capoeira nasceu no gueto
E o mundo já ganhou
A Capoeira está livre
Deste sistema opressor
Para ser bom Capoeira
Não é preciso ser doutor
Todo Mestre é doutorado
Nesta arte, meu sinhor...
Vai na paz de Deus é também um corrido de autoria do Camaleão.
Eu estive presente no espaço do Mestre Marrom (este é o do Rio)
quando Camaleão cantou-o pela primeira vez, em outubro de 2001. Ali,
enquanto tomávamos uma cerveja, logo após o término da tradicional roda
de 6a feira, no Copaleme (Ladeira Ary Barroso), perguntei para
o Camaleão de onde veio a inspiração para tal corrido. E ele disse “Miltinho,
eu estava passando por uma igreja evangélica, de pandeiro não mão, e
ouvi os crentes falando um para o outro: vai na paz de Deus... E dali já
saí cantando e batendo no pandeiro: Vai na paz de Deus, vai na paz de
Deus, vadiá, vai na paz de Deus, vadiá eu vim na paz de Deus, vadiá...”.
Já
o CD do Pernalonga traz uma história diferente. Aliás, é a própria
história de vida do Perna, na periferia de Taboão da Serra. Nascido e
criado no gueto, e com a família embrenhada na música, não foi difícil
para ele merecer destaque, tanto pelas composições, quanto pelo seu
cantar particular.
Um
corrido que marcou muito ver seu Perna cantando é “Volta lá
volta cá, venha ver o que é, Volta lá volta cá, venha ver o que é”.
Isso foi em agosto de 2001, em São Sebastião, no tradicional evento do Mestre
Dominguinhos, que contou com Angoleiros de São Paulo e Rio.
Para
finalizar, as gravações são de excelente qualidade, CDs bem elaborados,
com encartes trazendo ladainhas, fotos, e contando um pouco da história de
cada um. Recomendo a todos!
Axé
Camaleão! Axé Baixinho, Marrom e Perna! Axé Cultura do Brasil!
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