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RASTEIRA NA CAPOEIRA
Lúcia Palmares -
Paris/França
Ultimamente, na capoeira
em São Paulo e ainda mais na Europa, lamento a quase-desaparição da rasteira.
A rasteira foi um símbolo de perícia dos capoeiristas.
Era motivo de horas de treinamento na academia.
Para conseguir o sucesso de colocar uma rasteira certeira, os capoeiristas
trabalhavam o parceiro; existia o floreio, a ginga, as "enganações"
que fazem parte da capoeira.
Não devemos deixar sumir coisa tão importante da capoeira.
Lembro de um caso que demonstra como considerada era a rasteira, no tempo ainda
recente que eu treinava na academia de Mestre Nô.
Um certo aluno, formado depois de anos de aprendizagem, considerou que, com a
sua forma física e sua experiência, superava o seu mestre. Desafiou o mestre Nô
num sábado a frente de todos os alunos e de diversas visitas. Nô foi para a
roda, dizendo que se perdia, ia embora, deixando o aluno senhor da academia.
Começou o jogo, num compasso médio, sem cantiga, e demorou bastante tempo.
Havia muita tensão; quem tocava, tocava, os demais permaneciam silenciosos.
Havia momentos de superioridade de um sobre outro, e depois virava a vantagem.
Nô cozinhou o aluno até dar uma rasteira fantástica que pegou nas duas pernas
e mandou o aluno com as nádegas no chão.
O aluno com raiva tentou partir para murros, mas os outros impediram. Ele, no
final, ficou tão desgostoso que abandonou a capoeira.
É um caso entre muitos que eu vi, que dá para comprovar a importância simbólica
da rasteira na capoeira.
Quem não lembra do talento do mestre Canjiquinha, de Um-por-Um (da Massaranduba),
de Marcos "Alabama", na rasteira?
Nos batizados, a conclusão do jogo do novato era a derrubada com rasteira,
excluindo outras formas de desequilibrantes.
Hoje vemos capoeiras que se dizem excepcionais não conseguirem dar uma rasteira
nos alunos que se batizam. Vemos as intimidações dos capoeiras aos novatos, e
golpes traumatizantes e balões efetuados sem técnica para derrubá-los. É
lamentável ver que a nova geração de capoeiras tem elementos que não se
orgulham numa técnica, e ficam tão inseguros na sua arte, que não abrem o
jogo (mesmo que fosse no intuito de derrubar) para principiantes de uns meses de
treinamento. Quem está assistindo de longe, vê as oportunidades que eles tem
de fazer. Eles não o fazem, preferindo os movimentos violentos, para tristeza
dos presentes, sejam eles alunos, parentes ou espectadores que conhecem a arte.
Parece, então, que a
rasteira saiu do cardápio de muitos capoeiristas.
Por que?
Será que novos métodos de
treinamento excluíram a rasteira? Será que não faz parte da capoeira moderna?
Será que a rasteira exige demais destes novos donos da capoeira?
A rasteira pede muita consciência do outro. Assim que já notei, é preciso
trabalhar, cozinhar bastante o oponente para que este se jogue num golpe
decisivo... que acaba na própria derrubada. É o parecer de um mestre; mas
precisa de cabeça, e de tempo.
Os jogos que assistimos tem por objetivo principal de mostrar movimentos. Sejam
agressivos ou acrobáticos, não importa, os movimentos superam na mente dos
jogadores a tática, a perícia na arte de manobrar o outro.
Em geral, concordamos com os que acham, como mestre Decanio, que o compasso rápido
demais e a vontade de se impor num "vale tudo" prejudicam o jogo da
capoeira, tirando a ginga, a rasteira, tudo que faz a beleza da nossa arte.
Se, como suponho, a capoeira da Bahia tem alguma coisa para ensinar ao mundo,
(em prática para os nossos alunos europeus), é justamente esta coisa original.
Por isso, não podemos aceitar ver um elemento fundamental como a rasteira
desprezado.
Por isso, desenvolvemos um trabalho básico com nossos alunos, sejam homens ou
mulheres, fracos ou fortes, novos ou velhos, no sentido de uma capoeira que se
importa com o outro, parceiro e adversário no mesmo tempo.
* * *
Lúcia Palmares é
enfermeira, baiana, nascida em Salvador em 15/5/1955. Foi aluna de capoeira de
Norival Moreira de Oliveira, o Mestre Nô, na Academia Orixás da Bahia na Maçaranduba/Salvador/BA,
a partir de 1971. Recebeu o cordão de professora em 1979. Ensinou na academia
Centro Suburbano de Capoeira (rua 2 de Julho, 19, Alto de Coutos) do Mestre
Dinelson, de 1980 a 1990. Em 1987 recebeu o cordel de Contra-Mestre entregue
pelo Mestre Nô. Em 1992 saiu de Salvador, foi para Santos (SP) continuou
ensinando a capoeira trabalhando numa ONG. Em 1995 mudou se para a França.
Fundou em 1996 o Grupo Capoeira Palmares em Paris e pesquisa os aspectos culturais da
capoeira. Poderá ser contatada pelo e-mail: polbrian@worldnet.fr
Visite o site do grupo no endereço http://services.worldnet.net/polbrian/palmares.html

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