MEMÓRIA DA CAPOEIRA
Centros de Referência Paulista – parte final
Miltinho Astronauta
São José dos Campos
Agosto/2004
Apresentamos nesta semana a
parte final do artigo “Memória da Capoeira”. É claro que o assunto não se
esgota por aí. Urge que os grupos, independentemente do tamanho que tenham,
passem a observar melhor o modo como têm tratado os documentos da história da
Capoeira e dos capoeiristas em geral.
Particularmente, temos observado que
alguns mestres, após terem alcançado certo prestígio na comunidade
capoeirística, estão contando sua história pregressa como bem lhes convém. Por
exemplo, em São Paulo, existe uma legião de formados de Mestre Bimba que só o viram quando de sua vinda, no início dos
anos 70. Neste momento, entra em cena a importância dos registros e
documentos...
Acreditem, temos muito a resgatar
sobre a verdadeira história dessa Nega
Mandingueira chamada Capoeira, inclusive em solo paulista.
Fiquei muito feliz ao saber, por intermédio de Mestre Damião, que o pesquisador Carlos Eugênio Líbano Soares,
respeitado pela excelência dos estudos sobre a Capoeiragem do Rio de Janeiro,
acaba de passar em um concurso público na Universidade Federal da Bahia. Com isso, ele passa a compor o notório time
baiano nos estudos da história da Capoeira naquele estado. Certamente que
ele deverá percorrer a Terra Boa
(Bahia) de Norte a Sul, de Leste a Oeste e do Mar ao Sertão, em busca de (mais)
respostas sobre nossa Capoeira que ou ainda não foram encontradas, ou não
foram divulgadas.
A estória
de que Rui Barbosa queimou tudo sobre a escravidão – e sobre a Capoeira – não
convence a mais ninguém. Uma prova disto é que, a título de exemplo, em
fevereiro de 2000 tive acesso à preciosa transcrição do registro de atividade escrava no Litoral Norte de São Paulo, mais
precisamente no município de São Sebastião.
Há indícios de que ocorreu capoeira
“no outro lado da ilha de São Sebastião”, hoje município de Ilhabela, enquanto os escravos
recém-chegados “praticavam” a língua local, antes de serem trazidos para o
continente.
Na ocasião, Mestre Dominguinhos, que desenvolve um excelente trabalho de
Capoeira Angola junto à Prefeitura daquela cidade, é quem abriu as portas para
que eu pudesse pesquisar tais documentos. Nas transcrições, encontrei o seguinte
dizer:
“Servirá este livro para nelle lançar
a matrícula dos escravos pertencentes ao vículo da colletoria
desta Villa de São Sebastião. Vai numerado e rubricado com rubrica =
Pinto = no início e termo de encerramento, 23 de abril de 1844. José
Antonio Pinto”
Continuemos o tema desta
semana!
Centros de Referência da
Capoeira pelo mundo
Não devemos nos assustar se,
mais uma vez, o Brasil for o último a se preocupar com a importância do que lhe
pertence. A informação de que a Federação Italiana de Capoeira já criou, e
mantém em funcionamento, o Centro de Memória da Capoeiragem é, ao mesmo tempo,
gratificante e inquietante. Gratificante porque mostra e comprova o crescente
sucesso da Capoeira no mundo todo; e inquietante, porque revela que outros
países estão mostrando maior sensibilidade e eficácia no trato do assunto.
Por certo, o amigo Jerônimo
Capoeira, responsável pela implantação da Capoeira na Austrália, há quase 20
anos, autor de diversos livros e CDs sobre nossa Capoeiragem, já deve ter também
saído na frente, e submetido aos governos daquele continente um projeto
criando o Centro de Memória da Capoeira na Oceania, envolvendo a
Austrália, Nova Zelândia, Tasmânia etc. Mestres Geni e Jorge Draga,
seguramente, devem estar engajados neste importante trabalho.
No interior de São Paulo, mais
precisamente na cidade de Piracicaba, temos o Centro de Documentação de
Cultural Negra (CDCN), que é parte integrante da estrutura funcional da
Prefeitura Municipal daquele Município. Claudival da Costa, conhecido no mundo
da Capoeiragem como Mestre Cosmo, que para minha felicidade foi – e é –
meu mestre, participou desde o início da organização do CDCN. O camarada
Antonio Filogênio Junior, estudioso da cultura e religiosidade afro-brasileira
– e da Capoeira – também faz parte daquele centro de documentação.
É chegada a hora, portanto, de
as
principais lideranças capoeirísticas daquela cidade e região se unirem para
criar um “Centro de Memória da Capoeira no Interior Paulista - Claudival
da Costa”. Sugestão que faço na certeza de estar representando o
pensamento de todos, prestando justa homenagem ao nosso saudoso mestre.
Centro que poderia ser
viabilizado através de pequenas doações dos principais capoeiras daquela região.
Como colaboradores em potencial, certamente podemos contar com M. Zequinha,
M. Geninho, M. Gilson, M. Mysso, M. Mangue Seco e Contramestre
Boca de Piracicaba; M. Gato Preto e Dr. Luis Normanha (Rio
Claro),
M. Lau (Araras), M. Domingos (Campinas), M. China e
M. Quebra-coco (Rio das Pedras). O próprio Junior do CNCN poderia
coordenar tal esforço. Ganharia a Capoeira como um todo!
Ainda falando da região Sudeste,
acredito que, atualmente, a Biblioteca Amadeu Amaral, no Rio de Janeiro,
apresente um dos maiores acervos capoeiristicos de acesso público do mundo. Na
verdade, trata-se de um acervo riquíssimo do Folclore Brasileiro, incorporado
como parte da FUNARTE pelo Ministério da Cultura. Querendo-se pesquisar,
efetivamente, a Capoeiragem, há que se passar por aquela biblioteca.
É claro que temos em outros
centros, em outros estados, acervos preciosos, começando por Bahia e Pernambuco
(acervo Jair Moura, Frede Abreu, Fundação Mestre Bimba etc). Mas, considerando-se
que estamos na região sudeste, e que nem todo Capoeira tem como viajar e ficar
longos períodos pesquisando tais acervos, urge montar um grande acervo, o mais
completo possível, aqui mesmo em São Paulo. Até porque, pelo pouco que já
conseguimos, não é absurdo prever, para daqui a muito pouco tempo, o surgimento
de um dos maiores centros de memória de Capoeira do mundo.
E fontes de documentação por
aqui é o que não faltam: M. Damião, M. Guga (Augusto Mario Ferrreira),
M. Suassuna, M. Prego, M. Miguel Machado (grupo em que me iniciei na capoeiragem,
na segunda metade dos anos 80), M. Kenura, M. Eli Pimenta, M. Pinatti, M.
Lobão, M. Robinho Angoleiro (Santo Amaro), M. Brasília e por ai vai.
Acervos pessoais e acervos públicos
O tempo vai passando, e os
mestres vão fazendo suas “passagens”, indo pra Aruanda, compor a Grande Roda lá
no Céu. E aqui na terra? Como têm ficado os acervos que esses mestres, durante
longa data, foram acumulando? Matérias em jornais e revistas, cartazes, fotos,
discos, anotações, cartas, livros, CDs, gravuras, vídeos, fitas cassetes e
outras relíquias estão correndo o risco de serem apossados por qualquer um, sem
uma catalogação adequada. E o pior de tudo: sem ser dada a chance do público ter
algum nível de acesso. Ou então de as respeitosas viúvas e filhos, simplesmente,
“jogarem tudo fora” e nossa memória ser, mais uma vez, deixada em segundo
plano.
Por
exemplo, onde foi parar o valioso acervo de um Paulo Gomes, de um Mestre
Natal, Silvestre, Limão, Silvio Acarajé, Edsel Clemente (M. Xerife),
Saruezinho (Piracicaba) e tantos outros mestres que escreveram, com suas
próprias pernas – a caneta do discriminado – a história da Capoeira em solo
paulista?
Todavia, há questões a serem
levadas em consideração: Qual seria a melhor forma de incorporar estes
acervos pessoais em acervos de domínio público? Como garantir que estes acervos
não venham a ser esfacelados, ou não caiam em mãos de sujeitos mal intencionados?
Qual a melhor política de indenização das famílias que venham a disponibilizar
os acervos dos Capoeiras mais antigos de nosso Estado?
Atenção, capoeiras da academia:
urge um estudo e projeto eficaz neste sentido!
Dicas para um acervo pessoal
Como sugestão, incluo
algumas dicas que aprendi com alguns mestres também preocupados com a memória da
Capoeira em São Paulo, principalmente com M. Cosmo, M. Damião, M. Prego e
M. Lacé:
·
Tudo que você
repassar (documentos, fotos, etc), fazer dedicatória anotando-se local e data;
·
Recebendo
materiais sem dedicatória, anotar procedência, data de recebimento e observações
pertinentes;
·
Nas fotos, anotar
o evento e local onde foi tirada, incluindo-se também os nomes dos indivíduos
retratados;
·
Tirar cópias de
documentos mais importantes, guardando-os em locais diferentes ou então cedendo
cópias a amigos de confiança;
·
Anotar
pensamentos, fatos, idéias e opiniões, suas ou de outros amigos, colocando-se
data e local onde se deu tal fato, sem esquecer de apontar o autor, é claro;
·
Organizar papéis,
fichas, cartas, anotações etc em pastas devidamente identificadas;
·
Tirar cópias de
CDs e fitas de vídeos antes de emprestá-los, mesmo que seja para alguém da maior
confiança: acidentes e incidentes acontecem a todo o momento... Perdi, por
exemplo, alguns documentos que estavam em posse de um amigo durante um furto a
seu carro... mas consegui recompor, por completo, os documentos extraviados;
·
Cuidado para que
as fitas cassete e de vídeo não se transformem em criadouros de fungos;
·
Imprimir arquivos
mais importantes (documentos, e-mails, relatórios), a fim de que não
sejam alvos de vírus ou problemas técnicos.
Amplificando conhecimento – palavras de um Mestre
Mestre Cosmo,
sabiamente, sempre me dizia que de nada valia ele ter um baú – e ele tinha
realmente um baú – de informações se ninguém pudesse a ele ter acesso! Semanalmente, ele
repassava precioso material para seus alunos e interessados nos assuntos que ele
dominava com humildade e sabedoria. Com isso, ele ficou consagrado como ponto de
referência do assunto Capoeira e Cultura na cidade de Piracicaba e região.
Ele manteve, por mais de três décadas, um acervo valiosíssimo, hoje em domínio
da família, que garante: “Por bom tempo não vamos mexer em nada... Pois o
Cosmo ainda está aqui, cuidando do que é dele (nosso)... e fiquem tranqüilo,
pois a memória do Claudival da Costa – e da capoeira Piracicabana - está sendo
preservada com todo o cuidado que merece...”.
Como resultado desta função
de “amplificador de conhecimento”, recebi das mãos dele preciosas informações
que, hora ele garimpava nos jornais, revistas, livros etc, ou então as recebia
de outros capoeiras e folcloristas de nossa Região. Para dar um exemplo real,
Mestre Zequinha passou para M. Cosmo um exemplar do livro “Iúna
mandingueira – a ave símbolo da Capoeira”, de autoria do pesquisador KK
Bonates, do Grupo Cativeiro Capoeira de Manaus. Pois bem, Cosmo
emprestou-me tal livro. Li e passei para meu professor (Marajó) do NGOLO/São
José dos Campos. Sei que, atualmente, pelo menos 20 pessoas já leram tal livro.
Até Mestre Damião (que ofereceu o primeiro curso de Capoeira em São Paulo em
1950/51) já teve acesso ao exemplar. Hoje, de volta à minhas mãos, vou fazer retornar
o livro ao “Baú do Cosmão”, para que o acervo não sofra baixas.
Certamente que todos os capoeiras que têm materiais que foram “emprestados” pelo
Mestre Cosmo estarão fazendo o mesmo!
Faço um alerta: temos que
ter muita organização e cuidado com os empréstimos. Por exemplo, conversando com
o próprio Mestre Damião no último final de semana, ele comentou que está
procurando um registro valiosíssimo. Trata-se de uma fita de vídeo, em 14 mm,
que foi gravada durante a Semana da Asa, em 1969, ocasião em que Mestre
Suassuna fez uma exibição excepcional no Centro Tecnológico Aeronáutico (CTA),
de São José dos Campos. Essa relíquia foi presente do Coronel Nogueira e hoje
M. Damião não consegue identificar o paradeiro da fita.
Estamos fazendo pensamento positivo para que ele encontre tal
documento!