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“MANDINGAS LITERÁRIAS” OU: A
CAPOEIRAGEM NO RIO DE JANEIRO E AS LEVIANDADES DO ANDRÉ LACÉ.
Carlos
Wagner (Astronauta)
e-mail:
carloswagner@plusoft.com.br
Olá,
amigos capoeiristas, aqui estamos novamente, por força de nosso
compromisso com a Capoeira, para comentar o novo livro que está na praça:
“A Capoeiragem no Rio de Janeiro
– Sinhozinho e Rudolf Hermanny” (Ed.
Europa – Rio de Janeiro, dezembro de 2002), que versa sobre o
trabalho extraordinário de Mestre Agenor Sampaio (Sinhozinho) na preservação
da capoeiragem do Rio de Janeiro, bem como sobre a atuação brilhante dos
seus principais alunos. O livro externa ainda versões fantasiosas e
contraditórias sobre a suposta influência do método de Annibal
Burlamaqui durante a criação da Luta Regional do Mestre Bimba.
A autoria é do André Luiz Lacé Lopes.
Tivesse o autor se atido apenas a louvar o trabalho magnífico de
Sinhozinho e a atuação brilhante de seus alunos, buscando o resgate da
memória da capoeiragem na Cidade Maravilhosa, seu livro permaneceria
isento de qualquer forma de crítica. Entretanto, sua descontrolada paixão
pelo assunto “Capoeira” fê-lo descambar lamentavelmente para visões
imaginosas e inconsistentes sobre a Luta Regional Baiana do Mestre Bimba
e, de forma precipitada e ridícula, apresentar como verídicos fatos
inexistentes, que se diluem ao primeiro exame desapaixonado feito por
qualquer observador sensato, conforme veremos.
Comecemos por exaltar a parte positiva do trabalho de Lacé. O livro, na
parte referente ao Mestre Sinhozinho, vem preencher uma lacuna no mundo da
Capoeira. Faz justiça ao trabalho realizado pelo grande Mestre, explicita
sua metodização do ensino da capoeira, não só como exercício, mas
também voltada para o estilo defesa pessoal, na “porrada pra valer”.
É a Mestre Sinhozinho que se deve, sem sombra de dúvida, a preservação
da capoeiragem do Rio de Janeiro. Há menção rica em detalhes das
realizações esportivas de seus alunos mais antigos, há depoimentos dos
mesmos e de outras personalidades que acompanharam de perto o árduo
trabalho do velho Mestre. Destaca com muita propriedade um dos melhores
alunos do Mestre Sinhô, Rudolf Hermanny, atleta perfeito e verdadeiro
cavalheiro, dotado de singular educação e admirado por todos os que
tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Reclama o autor, André Lacé, de que o trabalho de Mestre
Sinhozinho tenha sido por muito tempo relegado ao desconhecimento do mundo
da Capoeira, principalmente no Rio de Janeiro. Pergunto eu: por culpa de
quem? Há quanto tempo Lacé é jornalista? E outros, que foram alunos do
Mestre, por que não teriam ajudado a preservar sua memória, seu
trabalho?... A vida é assim, Lacé, e você bem sabe disso. Existem os
alunos do calor da fogueira (amigos do Mestre, leais companheiros de todas
as horas). O mundo, entretanto, exige que se afastem e vão cuidar da
vida. Muitos prosperam e esquecem o Mestre, outros ficam por perto, já
como pais de família, lutando arduamente pela sobrevivência. Felizmente,
você acatou a idéia do grande Hermanny e materializou para a posteridade
a lembrança do trabalho fecundo do Mestre Sinhozinho.
Passemos agora a comentar o que no livro de Lacé se refere ao Mestre
Bimba, cuja figura o incomoda de tal maneira que se pode notar no seu
livro os disfarces – críticas, elogios sem qualquer autenticidade convincente,
apenas hipocrisia e desinformação.
Caros leitores: O que aqui vou declarar espelha o profundo sentimento
de indignação que o livro do Lacé fez brotar em mim. Já aos velhos Mestres
da Regional (mestres: Decânio, Esdras “Damião”, Perez, Cesar “Itapoan”,
Deputado e outros, que certamente tomaram conhecimento do livro do Lacé),
a matéria não causou espécie, pois eles já conheciam o problema do Lacé,
sua idéia fixa a respeito da capoeira de Mestre Bimba.
Permitam,
antes, que eu me apresente:
Conheci pela primeira vez a capoeira aos 6 anos de idade,
quando Mestre Esdras “Damião” e o professor e jornalista Martinho Lutero
dos Santos se preparavam, em São Paulo, para fazer a primeira exibição
televisionada de capoeira que houve em toda a história. Naquele tempo,
eles, na companhia de Mary Apocalipse, Levi Oliveira, Augusto Mário, Paulo
Dantas, Lísias “Macacão”, Guimarães Torrieri, Heli Vanini, Kid Jofre,
Solano Trindade e outros expoentes da melhor cepa cultural brasileira
empenhavam-se, todos, em “desfazer as atitudes racistas do desculturalismo
besta que bloqueava a divulgação da capoeira, pois isso, diziam, era
restaurar, sob a forma de esporte, uma atividade marginal, truculenta,
própria de negros boçais.” Era assim. Mas isto passou. Depois, vim a reencontrar
a capoeira num tempo de grandes ases, tempo de Suassuna, Brasília, Paulo
Gomes, Zé de Freitas, Pinatti, Limão, Silvestre, Joel, Cidão, Tarzan,
Esdrinhas, Lobão, Almir, Belisco, Tihane, Risadinha, Malvina, Marcelo
Caveirinha, Dal, Flávio
"Tucano", Biriba, ... os nomes
de todos aqueles bambas que vi circular, jogar, aprender e ensinar ali,
nas várias academias que Mestre Suassuna fundou em São Paulo, dariam para
encher umas dez páginas destas...
Passei a estudar sobre capoeira, sua origem e seus “estilos”, dedicando-me
(até agora) com maior afinco à Luta Regional, pelo fato de ser ela a mais
divulgada não só no Brasil como no mundo.
O fato
de ser a Regional tão bem sucedida, não só no Brasil como no mundo, faz
com que receba críticas por todos os lados, fruto muitas vezes de inveja,
despeito e frustração. O caso presente é típico. Lacé, candidato a “sabe-tudo”
sobre capoeira, jamais contatou os Velhos Mestres da Regional para se
informar sobre a verdadeira história de criação da referida luta, e no
entanto, investe levianamente contra a memória do Mestre Bimba, sua luta
e seus alunos. Por quê? Será preciso, para engrandecer o Rio de Janeiro,
diminuir a grandeza dos baianos? A minha indignação prende-se ao fato
de que fui a inúmeros batismos e simpósios, contatei Velhos Mestres da
Regional, e deles ouvi relatos idênticos sobre a criação da luta, hábitos
e costumes, procedimentos do Mestre Bimba etc. Causa-me pena ver surgir
um livro sobre o Mestre Sinhozinho que, diga-se de passagem, resgata com
muita justiça o seu trabalho em prol da preservação da capoeira, e, logo
em seguida, faz um péssimo trabalho desinformativo, valendo-se até mesmo
de adulterações e interpretações falsas sobre fatos plenamente comprovados
por documentos. Tudo isso somente alicerçado numa frustração confessa
à página 34 do seu livro, quando o autor, André Luiz Lacé Lopes, tirando
a máscara, declara:
“Estou
convencido da necessidade de brilhar e de ser consagrado no mundo acadêmico
e capoeirístico, mas, confesso, não sei como fazê-lo”.
Comecemos pela tão fantasiosa influência do método de Annibal
Burlamaqui durante a criação da Luta Regional Baiana, defendida com cega
paixão pelo André Lacé em seu livro.
Tempos atrás, segundo depoimentos que colhi com os velhos mestres
da Regional, Lacé assegurava que Mestre Bimba veio ao Rio de Janeiro
encontrar-se com Burlamaqui e retornou à Bahia levando novos
conhecimentos sobre capoeiragem para serem utilizados durante a criação
da sua Luta Regional Baiana. Nem Lacé nem ninguém jamais conseguiu
apresentar qualquer prova, qualquer jornal da época ou depoimento que
atestassem a veracidade desse fantasioso “acontecimento”. Frustrado
por não ter condições de provar tal absurdo, mantinha-se Lacé,
entretanto, convencido de que tal fato ocorrera, ou devia ter ocorrido...
Irmanado a ele em sua forma de pensar sobre o assunto, apareceu o
prof. Sérgio Luiz de Souza Vieira, presidente da Confederação
Brasileira de Capoeira e, em entrevista à Revista Mundo Capoeira nº 1,
de 1999, assegurou levianamente, sem qualquer prova apresentada, que
ocorreu um encontro entre Bimba e Burlamaqui no final dos anos vinte e
começo da década de 30, no Rio de Janeiro.
Em resposta a essa e outras declarações estapafúrdias proferidas
pelo prof. Sérgio à referida revista (declarações que ele nunca
desmentiu: ao contrário, sempre as repetiu, quando teve oportunidade de
fazê-lo), o Mestre Damião, ex-aluno do Mestre Bimba e que com ele
conviveu estreitamente nos anos de 1946, 47, 48 e 49, fez publicar pela
Internet (no site Capoeira do Brasil – http.www.capoeiradobrasil.com.br/liga_2.htm)
o artigo intitulado “A Verdadeira História da Criação da Luta
Regional Baiana do Mestre Bimba”, que desmascarou as afirmações
inconsistentes do prof. Sérgio. Nesse trabalho, o Mestre Damião informa
o seguinte:
“Dizer
que o método de Burlamaqui não era conhecido por ninguém na Bahia na década
de 1930 seria uma desavergonhada mentira, mesmo porque a cidade do
Salvador não era uma aldeia... Mestre Decânio, o mais antigo aluno do
Mestre Bimba ainda vivo e atuante, e que com ele conviveu desde 1938,
participando ativamente da fase do aperfeiçoamento da Luta Regional
Baiana, contou-me que Cisnando, seu grande amigo e alma gêmea, médico
como ele e que colaborou intensivamente com Bimba na criação da Luta
Regional, possuía o método de Annibal Burlamaqui. Entretanto, nada
desse método foi utilizado por eles (Cisnando/Bimba) durante
a criação da referida luta.”
(os grifos são meus)
Vejam, caros leitores, que testemunho incontestável. Pois bem,
pasmem sobre o que aconteceu. O André Lacé, precipitado como sempre,
dirigiu, em 31 de maio de 2002, ao Mestre Cobra Mansa um e-mail nos
seguintes termos:
“Veja,
a Regional, no fundo, não é barro nem tijolo. Fatura em cima de um cadáver
negro (o grifo é meu)
que, apoiado na leitura (Zuma-Burlamaqui) que fez um de seus brilhantes
alunos (branco, classe média, acadêmico de medicina – Cisnando, aliás
uma figura realmente extraordinária), criou a híbrida capoeira
regional.”
Tamanha mentira, além da covarde e repugnante discriminação
racial que representa, recebeu de minha parte, pela Internet (junho de
2002), o seguinte comentário:
“O que é isto, mestre Lacé?
Quanta leviandade – será racismo? ‘cadáver negro’, isto lá é
maneira de se referir à figura do grande Mestre Bimba??!!”
“Assim,
você pode vir a ser considerado racista, além de ter desnudado toda a
sua frustração quanto ao sucesso da Luta Regional do Mestre Bimba em
todo o mundo, inclusive no Rio de Janeiro, onde ela é mais divulgada do
que em Salvador... Respeite o cadáver de Mestre Bimba, seu Lacé, pelo
menos respeite os mortos... logo o sr., um escritor que sempre foi
considerado um fidalgo... Está certo que o seu cadáver, sr. Lacé, será
branco, mas qualquer um deles, negro ou branco será da mesma forma
consumido pelos vermes, que igualam a cor dos cadáveres e dissolvem todos
os recalques, todas as vaidades e discriminações próprias dos pobres de
espírito. Ora, mestre Lacé, ‘cadáver negro’... que expressão
infeliz, chega a nos deixar engulhados...
Quanto à sua doentia mania de
dizer que Bimba copiou Burlamaqui, tenha a hombridade de dizer de que
forma foi realizada essa influência. Isto, nem você nem ninguém
explica. Depois que o Mestre Damião publicou seu trabalho sobre a
verdadeira história da Regional, todos aqueles, inclusive você, que
acreditavam piamente no encontro de Bimba com Burlamaqui no Rio, sem
entretanto indicar a data, o local, e os jornais da época que teriam
relatado o encontro, devem ter exultado. Ao tomarem conhecimento pelo
Mestre Damião de que Cisnando tinha o método de Burlamaqui, julgaram ter
achado a ‘porta do céu’, e provavelmente exclamaram, histéricos:
‘Graças a Deus, eis a prova cabal!’ Mentira, Lacé. No trabalho de
Mestre Damião pode-se ver que o Dr. Decânio, ainda vivo e respeitável
aluno de Bimba (desde 1938, época do aperfeiçoamento da Regional) e
amigo íntimo do Cisnando, declarou: ‘Cisnando tinha o método de
Burlamaqui, mas nada dele foi utilizado durante a criação da Regional’.
Prove, Lacé, a tal influência por palavras, comparando e explicitando,
como fez Mestre Damião, esclarecendo de forma convincente que não houve
a mínima influência do método de Burlamaqui sobre o de Bimba. O resto,
meu caro Lacé, é a vontade doentia em que se irmanam, você e o prof. Sérgio,
de que tenha acontecido aquilo com que vocês sonham...“.
Em vez de dar aos internautas uma satisfação pelo seu vergonhoso
procedimento (travava-se, àquela época, verdadeira batalha de e-mails
nos grupos de discussão), Lacé manteve-se “mandingueiramente” em silêncio
(na verdade, simplesmente desconsiderou o meu texto, deixando-o sem
resposta).
Ao publicar agora seu novo livro, este que está em pauta, comete o
Lacé mais uma ação pusilânime, suficiente para desmoralizar qualquer
escritor: à pág. 45, no primeiro parágrafo, achou por bem omitir do
depoimento do Mestre Damião, citado mais acima (pág. 3), exatamente a
parte final (justamente ela), em que o Mestre Decânio informa sobre a
não-utilização de qualquer procedimento do método de Burlamaqui
durante a criação da Luta Regional Baiana. (o grifo é meu).
A omissão supracitada é desleal (se não for criminosa), bem própria
daqueles que, cegos por uma paixão doentia, procedem irrefletidamente,
utilizando qualquer procedimento para tentar, a qualquer preço, provar
suas imaginações fantasiosas.
Inserir num trabalho inédito sobre “A Capoeiragem do Rio de
Janeiro – Sinhozinho e Rudolf Hermanny” argumentos inconsistentes,
imaginações fantasiosas, montagens e adulterações de fatos, tentando
desmerecer disfarçadamente o Mestre Bimba, sua Luta Regional e seus
alunos, só pode servir para criar um clima de incredulidade crescente
sobre as verdadeiras intenções do seu apaixonado autor. Parece à
primeira vista existir um incontrolável sentimento de frustração pela
enorme divulgação e aceitação
da Luta Regional Baiana do Mestre Bimba, no Brasil e no mundo, inclusive
no Rio de Janeiro, com invulgar destaque.
Lacé, que tanto fala e condena o “embranquecimento” da
Capoeira, não deixa de ser um intruso no mundo “moreno” da Capoeira,
do qual usufrui financeiramente alguns trocados mediante a publicação de
livros, artigos, conferências etc. Sua atual obsessão é realizar um
projeto para resgatar a Capoeira como luta (arte marcial).
Não creio que exista aí algo extraordinário, pois não é difícil
perceber que a Capoeira pode ser praticada como luta, dança e esporte,
estando subordinada tal escolha ao temperamento de cada indivíduo. A
grande realidade é que, atualmente, o número de competidores com
predisposição de se machucar no caso de “porrada pra valer” é
bastante reduzido. O tempo de
Damião e Martinho, ou ainda o de Suassuna e Brasília, quando chegavam a
São Paulo, eram “tempos heróicos”, tempos difíceis, eram dias em
que os capoeiras tinham de mostrar o valor de sua luta, ou apanhar... e os
desafios eram constantes, sem a cobertura da TV, sem jornal, sem
“merchandising”, Lacé, era briga de rua, mesmo. A capoeira provou o
seu valor como luta pra valer, tanto é que se estabeleceu firmemente na
Paulicéia. Hoje, os tempos mudaram; e ninguém, na era do colchão de
espuma, do carro com ar condicionado, do fio-dental nas praias e do fair-play nos esportes, ninguém vai querer se pegar no
agarra-agarra com os “bombadões” de orelhas maceradas, nas rinhas do
vale-tudo (a não ser que haja um bom dinheiro como prêmio, não é
mesmo, Lacé?). Ademais, não é no “ultimate fighting” que as artes
marciais se desenvolvem. Os enfrentamentos entre modalidades diferentes de
artes marciais são, invariavelmente, espetáculos comerciais bem pagos.
Creio entretanto que a Capoeira como arte marcial poderia ser
restabelecida nas academias como defesa pessoal, mediante o treinamento de
grupos selecionados, e em horários especiais, sob a orientação de
mestres qualificados (o que, diga-se de passagem, não seria novidade,
pois vários mestres já o fizeram e, sem dúvida, ainda o fazem). Daí,
talvez pudessem surgir grupos especializados na prática da Capoeira
essencialmente como Luta Marcial. Não creio, entretanto, que a capoeira
deva se transformar em luta de ringue e passar a disputar com outras
modalidades.
Cumpre ressaltar que as críticas feitas pelo Lacé sobre a ausência
da Capoeira como luta marcial dão a entender que
os capoeiristas de hoje, em especial os “regionalistas de
Bimba”, se desafiados para uma briga ficarão perplexos e estáticos.
Bem, é uma dúvida bastante fácil de tirar, embora eu não aconselhe o
Lacé a fazê-lo... Os capoeiras são bons de briga, sim, Lacé, não
tenha dúvidas, e você mesmo, no seu livro, é pródigo de elogios ao
Mestre Hulk.
Deixando de lado o “resgate da Capoeira como arte marcial”,
preconizado pelo Lacé, voltemos agora nossas atenções para os assuntos,
no mesmo livro, em que ele, com invulgar sutileza, tenta desprestigiar o
Mestre Bimba, sua Luta Regional e seus alunos.
Como a “pseudo-influência” do método de Burlamaqui sobre o método
de Bimba é citada de forma leviana e apaixonada inúmeras vezes no livro,
continuarei a contestá-las, a bem da verdade e da memória do Mestre
Bimba, como se segue:
À pág. 158, diz Lacé:
“1.2
Jorge Amado, no seu livro ‘Bahia de Todos os Santos’, escrito em 1944
e publicado (1ª Edição) também em 1945, no capítulo ‘Capoeiras e
Capoeiristas’ afirma (como duvidar de Jorge Amado?): ‘Há alguns anos
os arraiás da capoeira, na Bahia, foram palco de uma grande e apaixonante
discussão. Acontece que Mestre Bimba foi ao Rio de Janeiro mostrar aos
cariocas da Lapa como é que se joga capoeira. E lá aprendeu golpes de
catch-as-catch-can, de jiu-jitsu e de box. Misturou tudo isso à capoeira
de Angola, aquela que nasceu de uma dança dos negros, e voltou à sua
cidade falando numa nova capoeira, a capoeira regional’.”
CRÍTICA: A paixão cega de André Lacé sobre a influência do método
de Burlamaqui durante a criação da Regional de Bimba impede-o de
perceber que a narrativa acima não passa de uma fantasia criada pelo
ilustre escritor baiano, pois este ignorava como havia o Mestre incluído
golpes de outras lutas (estrangeiras) na Capoeira Regional, uma vez que as
mesmas eram praticamente desconhecidas em Salvador.
Mesmo assim, apressado, crente de que “descobriu a pólvora”,
Lacé refere-se, intrigado, à retirada das mais recentes edições do
livro de Jorge Amado de toda essa parte referente a Mestre Bimba. Mais
adiante, estupefato, exclama:
“O que levou Mestre Jorge Amado a permitir o ‘patrulhamento’ desta
parte nas edições recentes do seu famoso livro?”
É facílimo responder a isto, Lacé. Não tenho dúvidas de que
para você é difícil, uma vez que você demonstra em seu livro ser uma
das pessoas mais desinformadas sobre a Bahia, Mestre Bimba e seus alunos.
É entretanto fácil de compreender, em razão da incurável frustração
que lhe causa o sucesso extraordinário de Bimba, sua Luta Regional e seus
alunos no Brasil e no mundo (inclusive o Rio Maravilha). Mas vamos diluir
sua estupefação, André Lacé.
Você como jornalista deve saber que nenhum editor seria
“louco” o suficiente para omitir um trecho da reedição de uma obra
de qualquer escritor sem o seu consentimento. Mormente sendo este escritor
Jorge Amado. Esse editor certamente cometeria um “suicídio
editorial”, e jamais editaria qualquer outro livro.
Um outro fato assaz contundente foi o advento do livro “A
Herança de Mestre Bimba – Lógica e Filosofia Africanas da
Capoeira”, da autoria do médico Dr. Angelo Augusto Decanio Filho,
um dos mais antigos alunos do Bimba, ainda vivo e atuante, e que com ele
conviveu desde 1938, durante a fase final do aperfeiçoamento da Luta
Regional. Nesse livro, Mestre Decanio conta com riqueza de detalhes como
foi criada a Luta Regional Baiana. Cisnando, médico como ele (era sua
“alma gêmea”), conviveu com Bimba desde 1930, quando aprendeu
Capoeira. Colaborou com o Mestre durante a criação da Luta Regional,
exibindo para ele alguns golpes de jiu-jitsu, boxe e luta greco-romana,
dos quais era um exímio conhecedor. É importante frisar que a decisão
da conveniência ou não da inclusão desses golpes na Luta Regional era
exclusivamente do Mestre Bimba. Mestre Decanio é a atual “Lenda
Viva” da Capoeira Regional. Após o afastamento de Cisnando da Academia
do Mestre, em 1938, em virtude de sua formatura em medicina, Decanio
passou a dispensar ao Mestre Bimba, a partir de 1938, fase ainda do
aperfeiçoamento da Regional, atenção filial, cuidados médicos,
assessoramento em assuntos relacionados com a administração da Academia,
estudos sobre novos golpes e contragolpes e regras destinadas ao aperfeiçoamento
da luta. Tudo isso em concordância com a aprovação ou não de Bimba.
Pois bem, com todos esses serviços prestados à Luta Regional do
Mestre Bimba, Decanio teve o seu livro (supracitado) lido e analisado pelo
grande Jorge Amado, que o consagrou com os seguintes dizeres: “é um
livro singular e de agora em diante imprescindível no estudo da arte da
capoeira.” É plenamente compreensível, diante disso, que Jorge Amado
tenha aceitado in totum a versão dada pelo Mestre Decanio sobre a criação
da Regional.
Ilustre leitor, o André Lacé leu o livro do Decanio, entretanto,
acometido de “burlamaquite aguda”, ignorou a seu modo as preciosas e
verdadeiras informações sobre a origem da Luta Regional. Preferiu
assacar inverdades, cometer adulterações de textos e fazer suposições
levianas e fantasiosas, objetivando de forma sutil desmerecer o trabalho
de Bimba, a sua Luta Regional e o desempenho dos seus alunos.
Outro fato incontestável e assaz conhecido na Bahia é que a
primeira vez que Mestre Bimba afastou-se da Bahia foi em 1949, trazido
pelos Mestres Damião, Garrido, Perez e o cantor Batista de Souza, a fim
de realizar exibições de Capoeira Regional em São Paulo. Os
acontecimentos ocorridos nessa viagem são narrados fielmente no livro
“Conversando sobre Capoeira”, da autoria de Esdras Magalhães dos
Santos (Mestre Damião), muito elogiado pelo Lacé.
O que é profundamente lamentável é a capacidade que tem o Lacé
de tergiversar com as idéias e os fatos, distorcendo-os a seu bel
prazer... É impressionante como ele passa tão facilmente das suas
fantasiosas suposições aos “certamente”, “seguramente”,
“decididamente” e “sem dúvida nenhuma”. Existe uma entrevista do
Mestre Bimba, publicada no jornal “A Tarde”, da Bahia (vide Anexo 1),
em que ele conta para a posteridade como criou sua Luta Regional. Pois
bem, ela, para o André Lacé, de nada vale, ou seja, não merece crédito.
E é assim que ele procede para tentar provar de forma inconsistente
aquilo que afirma levianamente. Suas afirmações (às páginas 47 e 48)
de que o livro “Gymnastica Nacional – Capoeiragem Methodizada e
Regrada”, de Annibal Burlamaqui, correu o Brasil, passando de mão em
mão entre os estudiosos da arte da capoeiragem e de que era o
livro de cabeceira do Cisnando são totalmente mentirosas. Há o
testemunho inquestionável do Mestre Decanio, transcrito à pág. 3 deste
trabalho, que teve sua parte final suprimida pelo Lacé, um ato de
desonestidade intelectual que os especialistas no estudo da História
chamam de “forjicação” (ver José Honório Rodrigues – Teoria
da História do Brasil, Cia. Editora Nacional – leitura obrigatória
na formação dos historiadores), isto é, a supressão de trechos
ou a falsificação com o intuito de privilegiar e dar veracidade a uma
falsa interpretação. É ou não é, caros leitores, um procedimento de má
fé, desmoralizante para qualquer escritor?
Vejamos, a seguir, mais algumas informações incoerentes prestadas
no seu livro e que serão por mim contestadas. Lê-se, à pág. 39:
“No
mundo específico da capoeiragem, pelo menos em tese, terá sido
mais provável que Salvador tenha copiado o Rio do que o Rio copiado
Salvador. Não em relação à Capoeira Angola, folclórica, própria de
Salvador, mas seguramente em relação à capoeira moderna,
estilizada, a chamada Capoeira Contemporânea ou Regional.”
(os
grifos são meus)
CRÍTICA: Os mestres por mim consultados exclamaram: “É muita
desfaçatez para uma pessoa só”. Notem as expressões por mim grifadas:
não passam de suposições inconsistentes que se diluem completamente
ante a leitura da entrevista de Mestre Bimba no Anexo 1 deste trabalho,
informando para a posteridade como criou a sua Luta Regional. Ignorá-la
propositadamente só pode ser insensatez.
Além disso, aprofundemos nossa crítica: por quê, perguntamos,
teria sido mais provável que Salvador “macaqueasse” o Rio de Janeiro?
Que categoria sociológica e essa, a da imitação pura e simples,
inventada pelo Lacé? Carecia Salvador da dimensão cosmopolita de pólo
difusor econômico e cultural? ...ela, que desde 1549 foi a capital, a
sede política e administrativa da colônia, condição que manteve até
1763? São 214 anos de hegemonia, Lacé, para sua informação.
Dizer,
à pág. 49 do seu livro, que
“a
própria Capoeira Regional da Bahia só ganhou dimensão nacional e
internacional em função do sucesso do Grupo Senzala, criado no Rio de
Janeiro também por jovens da classe média carioca”
é
apenas uma meia-verdade, pois falta completar que aqueles valorosos jovens
aprimoraram-se na prática da referida capoeira com alunos de Bimba, tais
como Acordeon, Camisa Roxa e outros, e com o próprio Mestre Bimba,
durante visitas periódicas a Salvador. Realmente, eles deslumbraram as
platéias que os assistiram jogar a Capoeira Regional. Não é exagero
dizer que eles, por onde se apresentaram, honraram e dignificaram Bimba e
sua Regional, ao passo que você, Lacé, tenta compensar a sua frustração
procurando inutilmente, de forma sutil, deslustrar o mito Bimba e sua Luta
Regional.
Prosseguindo, à pág. 77 do livro de Lacé acha-se dito que no “Diário
da Bahia” de 13 de maio de 1936, Bimba, ao ser entrevistado, elogia
o livro de Annibal Burlamaqui.
Trata-se aí de mais uma tola invenção do André Lacé, a mesma má
leitura em que já incorrera o prof. Sérgio de Souza Vieira noutra ocasião.
O leitor verificará (no Anexo 2 deste trabalho) que Bimba, na referida
entrevista, simplesmente prestou uma informação ao jornal, sem sugerir
ou solicitar a utilização das regras de Burlamaqui durante as competições.
É só ler o último parágrafo da entrevista mencionada para se saber que
quem traçava as normas para as competições era a direção do Parque
Odeon, local onde eram elas realizadas. E mais: dois dias após a realização
de tal entrevista, Bimba, ao ser entrevistado pelo jornal “A Tarde”
(Anexo 1), não se refere mais às regras de Burlamaqui, nem os jornais da
época tampouco. Aliás, na entrevista do “A Tarde”, citada, Mestre
Bimba explicita de forma cristalina como eram contados os pontos durante
as competições (critérios que nada tinham a ver com o sistema de
Burlamaqui, como se pode ver, no Anexo 1). O pobre Lacé, qual um náufrago
aflito, tenta por todas as formas sobreviver com a tal “influência”...
Deveria, isto sim, apresentar registros, depoimentos e documentos
verdadeiros que ele bem sabe serem o que comprova a existência do fato
histórico, e não afirmações e suposições levianas e inconsistentes.
Acrescentando mais tolices ao seu cabedal de “conhecimentos”
sobre a Regional, dá-se Lacé ao luxo de dizer mais esta bobagem (pág.
249 de seu livro):
“Na
realidade, o nome ‘Regional’ foi cunhado, não para se contrapor à
Capoeira Angola, mas para se contrapor à ‘Capoeira Nacional’”, ou
melhor, à “Gymnastica Nacional”, de Zuma e outros.”
Esta invenção é de fazer rir aqueles que conhecem a verdadeira
história da Luta Regional do Mestre Bimba. Parece que a frustração do
Lacé é de tal monta que faz “cristalizar” seu raciocínio e não o
deixa perceber o ridículo a que se expõe.
O excelente livro do Mestre Decanio (já citado), que é do
conhecimento do Lacé, é um testemunho inquestionável sobre a criação
da Luta Regional Baiana. Lá, à pág. 30, Decanio esclarece:
“...a
capoeira na forma em que a conhecemos... embora tenha sua raiz mística,
musical e coreográfica... na dança ritual do candomblé... foi elaborada
no Recôncavo Baiano!... donde se espalhou para as outras regiões da
Bahia... do Brasil e do Mundo.”
E mais, à pág. 107:
“...idealista
por natureza, poeta e sonhador, de grande inteligência e cultura,
Cisnando logo induziu o Mestre Bimba a enriquecer o potencial bélico da
luta negra pelo acréscimo de movimentos oriundos de outros processos
culturais africanos e alguns, raros, de outras origens, ampliando seus
recursos pugilísticos, e a registrá-la sob uma nova denominação,
batismo que disfarçaria sua origem duma atividade legalmente proscrita!!!
Naquele momento histórico, era esse o caminho adequado à introdução
da capoeira na estrutura social da época! Não fazendo modificação
alguma capaz de descaracterizar a capoeira em si ou alterar seus rituais
consolidados...” (os grifos são meus)
E
à pág. 108:
“...assim
é que foi a Capoeira rotulada como ‘Luta Regional Baiana’... ganhando
título de cidadania... adquirindo o direito à liberdade de ensino... e
à prática regulamentada!”
O ilustre leitor perceberá de pronto que o nome “Luta Regional
Baiana” foi dado ao novo estilo de Capoeira criado por Bimba objetivando
que a Capoeira pudesse escapar do seu enquadramento no Código Penal
vigente desde 1890, que considerava sua prática criminosa (o fato é
conhecido por todos aqueles que já se debruçaram sobre o assunto).
Ouçamos, de novo, Mestre Decanio (“A Herança de Mestre
Bimba” – pág. 131):
“...assim
é que... num determinado momento histórico foi necessário disfarçar a
capoeira sob o manto de uma luta regional baiana para eludir ao processo
penal vigente... de modo similar ao que aconteceu no candomblé, com a
aceitação da nomenclatura cristã dos seus orixás... sem que houvesse a
perda de sua autenticidade! ...preço da sobrevivência de ambos os
processos culturais! ...o ritual, o âmago da questão, em ambos os
casos, permanece intacto até hoje, testemunhando a sabedoria da conduta e
da filosofia africanas... de não-resistência direta, da esquiva, da
persistência dissimulada no propósito, características da capoeira!”
Eis aí um testemunho de quem viveu e conviveu com aqueles que
desde o início participaram da criação da Luta Regional, e que também
participou da fase de seu aperfeiçoamento. Decanio, como já dissemos, é
uma lenda viva da Capoeira Regional. Detém o testemunho mais autorizado,
a verdade sobre a criação da Luta Regional e também sobre o Mestre
Bimba. Amigo íntimo de
Cisnando e considerado como “o filho branco” que Bimba não teve. Sem
sombra de dúvida, um verdadeiro oráculo no mundo da capoeira. Médico de
renomado conceito, fundador da Escola Baiana de Medicina, dono de um currículo
profissional extraordinário, humanista de primeira ordem e possuidor de
uma simplicidade invulgar. Considero um grande privilégio para qualquer
ser humano conhecê-lo pessoalmente.
Pois bem: Lacé, tendo lido o livro deste homem e até citado em
seu livro trechos que somente lhe convieram, desprezou informações
fidedignas e preciosas sobre a criação da Luta Regional Baiana para
criar suposições levianas e inconsistentes, objetivando desprestigiar a
memória do Mestre Bimba, sua Regional e seus alunos. Puro despeito, ou
jogada comercial...
É uma pena tal procedimento, mas pelo menos numa coisa ele é
sincero, quando, à pág. 34 de seu livro, deixando transparecer sua angústia,
desabafa, nos seguintes termos:
“Estou
convencido da necessidade de brilhar e de ser consagrado no mundo acadêmico
e capoeirístico, mas, confesso, não sei como fazê-lo.”
Certamente,
não será jamais com esse tipo de procedimento escuso. E agora, ilustres
leitores? Vamos em frente, que tem mais...
Com relação às lutas realizadas no Rio de Janeiro, em 1949,
entre os capoeiristas baianos e os lutadores de luta-livre e capoeiristas
alunos do Sinhozinho, é preciso que se diga: essas lutas não se deviam
ter realizado, considerando as más condições em que se encontravam os
“meninos de Bimba”. Sabe-se que Mestre Bimba voltou à Bahia,
extremamente indignado com as propostas que lhe fizera o empresário
Jacob. Os “meninos de Bimba” vieram a São Paulo para exibições
de capoeira, não lutas. O desafio dos cariocas aconteceu quando eles já
estavam desgastados pelas magníficas exibições que tinham acabado de
fazer, mal-instalados etc... Isto não é desculpa, mas sim a pura expressão
da verdade, que em nada desmerece as vitórias de seus adversários. Os
“meninos de Bimba” seguiram sós para o Rio – sem o Mestre. As lutas
com os alunos do Sinhozinho não demonstram absolutamente nenhuma pretensa
superioridade desta ou daquela metodologia. O desenrolar das lutas e os
resultados foram os seguintes, de acordo com o livro “Conversando
sobre Capoeira”, do Mestre Damião: Piragibe (luta-livre) X Clarindo
(capoeira – Bimba): Vencedor = Clarindo, com uma joelhada que abriu uma
fenda no rosto de Piragibe, ensangüentando-o de tal modo que o médico
suspendeu a luta, dando a vitória a Clarindo. A outra luta foi de
Clarindo (capoeira – Bimba) X Hugo Melo (luta-livre): Vencedor = Hugo
Melo, com uma gravata encaixada no pescoço de Clarindo da qual ele não
conseguiu se desvencilhar. O juiz deu a vitória ao Hugo Melo, alegando
que Clarindo dera as três pancadinhas nas costas do adversário para
aliviá-lo da gravata (apesar do indignado protesto de Clarindo). As
outras lutas: Jurandir (de Bimba) X Luiz Aguiar (de Sinhozinho): Vencedor
= Luiz Aguiar, com um pontapé na altura das costelas do Jurandir (lado
esquerdo) que o atingiu em cheio, retirando-o do combate. Perez (de Bimba)
X Hermanny (de Sinhozinho): Vencedor = Hermanny, por nocaute técnico.
Mestre Damião descreve este combate em seu livro, explicitando
inicialmente a impossibilidade de sua realização, em virtude de que o
Perez, apesar de ser um excelente capoeirista, podia sofrer durante a luta
um deslocamento do braço direito, na junção da articulação do ombro,
ao efetuar um salto ou uma negaça violenta, fato esse que o deixava
inoperante por alguns segundos, até que ele mesmo colocasse o braço no
lugar.
Ao ser escalado para a luta, aceitou de imediato realizá-la,
embora, a rigor, não tivesse condições de fazê-lo. Durante a luta, ao
esquivar-se de um violento pontapé desferido pelo Hermanny, deslocou o
braço e, curvado, acusando dor, tentou colocá-lo no lugar. Hermanny,
segundo Mestre Damião, foi fidalgo a toda prova. Ficou observando mas não
bateu. Poderia tê-lo feito, uma vez que a luta era pra valer e ele, não
sabendo do que se tratava, poderia entender que aquilo fosse uma manha
para atraí-lo. O juiz aproximou-se do Perez, tomou conhecimento do que
ocorria, suspendeu a luta e deu a vitória ao Hermanny por nocaute técnico.
Estou fazendo aqui um resumo sucinto dessas lutas. Narrativa mais
detalhada encontra-se no supracitado livro de Mestre Damião, aliás,
muito elogiado pelo André Lacé em seu livro.
Cumpre-me aqui deixar registrado mais um deslize ético do Lacé,
ao tecer comentários sobre a luta Perez X Hermanny, tentando adulterar
completamente os fatos, como já demonstramos em outras passagens deste
trabalho. Trata-se de colocar na boca do Hermanny, aluno do Sinhozinho,
palavras debochadas, humilhantes e que denigrem o caráter do verdadeiro
esportista, ao referir-se àquela luta nos seguintes termos (pág. 79 do
livro de Lacé):
“Isto foi há muito tempo, mas claro que houve movimentação de luta
e troca de golpes, tive a sorte de acertar uns bons tapas e pontapés, daí,
talvez, o problema que ocorreu com o rapaz.”
Já que falamos em deslizes éticos, citemos mais alguns: em
que pese o espírito esportivo do Velho Mestre Sinhozinho, o escritor Ruy
Castro, em seu depoimento, à pág. 113 do livro de Lacé, dá uma ligeira
“arranhada”, ao narrar uma disputa entre o referido Mestre e um
gigantesco estivador de Santos que veio ao Rio para enfrentá-lo numa
disputa de queda-de-braço.
“O confronto foi num cabaré da Lapa. Os amigos de Sinhozinho
apostaram forte em sua vitória. Mas, ao cruzar os punhos com o conterrâneo
para começar a luta, Sinhozinho sentiu que iria perder. Então, foi
mais esperto (o grifo é meu); Acusou o adversário de ter
tirado o cotovelo da mesa. O outro negou e Sinhozinho insistiu. O
santista, ingênuo, fez o que ele queria: foi malcriado, disse alguma
coisa. Sinhozinho acertou-lhe um soco e o tempo fechou. Não houve a
queda-de-braço. Sinhozinho continuou invicto e seus amigos receberam de
volta o dinheiro das apostas.”
Se o caso fosse com o Mestre Bimba, Lacé, com sua pobre e leviana
frustração contra os “regionalistas”, faria, muito provavelmente, o
comentário que vem a seguir. Em vez de enaltecer a esperteza do baiano,
diria: “O baiano foi de uma deslealdade esportiva sem precedentes”.
À mesma pág. 113 existe uma desinformação grosseira do próprio
Ruy Castro, ao tentar debochar do Perez, nos seguintes termos:
“Hermanny, com dezenove anos, só
precisou de dois minutos para mandar Fernando Perez direto do ringue para
o hospital”.
André Lacé sabe que se trata de uma vergonhosa mentira. Mas, como
lhe faz bem à alma, preferiu divulgá-la, acreditando que permaneceria
incólume (“quanta sabedoria!”).
Hermanny
é muito estimado entre os alunos de Bimba, inclusive pela atitude tomada
durante a luta com o Perez, descrita mais acima, no relato de Mestre Damião.
Seu procedimento àquela época, um garotão ainda, honrou e dignificou o
esporte. Fique Hermanny tranqüilo, que sua reputação de esportista íntegro,
na plena expressão da palavra, jamais será manchada por tão ridícula
bajulação. Como disse Mestre Itapoan em seu curto comentário ao livro,
“o Rio não lhe merece, Lacé”.
Vale registrar aqui que o Perez, atualmente comandante de aeronave
aposentado – Fernando Rodrigues Perez – ao ler o livro do Lacé,
exclamou: “É gozado, ele cobra de Mestre Damião por não ter ouvido o
Hermanny antes de publicar seu livro (“Conversando sobre Capoeira“);
no entanto, ele (Lacé), ao publicar agora o dele, não se dignou a vir
me ouvir. Por quê?”
Em conversa com antigos alunos de Bimba, abordei mais um assunto
que lhes soou ridículo: o fato de Lacé dizer, à pág. 103 de seu livro,
que “falta à Luta Regional um documento inicial lançando suas bases
filosóficas, teóricas e práticas”. E que existem publicações
esparsas de diversos autores, muitas vezes conflitantes, e que esses
conflitos “são justificados a
posteriori, a cada livro novo que sai.” Realmente, sempre haverá um
ou outro aluno que procurará dar uma versão às vezes apaixonada ou um
tanto diferente daquilo que o Mestre ensinou. O que causa ciúme e
despeito aos pobres críticos da Regional é que Bimba criou as geniais
seqüências de ensino para a prática de golpes e contragolpes, seqüências
que eram assimiladas mentalmente pelos seus alunos e utilizadas durante os
treinamentos. Estas seqüências revolucionaram o ensino da capoeira.
Ele também dava aulas teóricas e práticas de como utilizar a “malícia”
da luta em determinadas situações. Com relação às bases filosóficas,
teóricas e práticas da Regional, Lacé bem sabe onde encontrá-las, pois
já conhece o livro do Dr. Decanio – “A Herança de Mestre Bimba, Lógica
e Filosofia Africanas da Capoeira”, consagrado pelo nosso grande
Jorge Amado como “um livro singular e de agora em diante imprescindível
no estudo da arte da capoeira”. Esse livro inédito (há apenas uma edição
artesanal do autor) é considerado a Bíblia da Capoeira Regional do
Mestre Bimba.
O
que há com o André Lacé é muito recalque, frustração e complexo de
inferioridade, pelo fato de ser ele ridicularizado no “métier” da
Regional e em alguns setores da Capoeira Angola. Seu livro, agora
publicado, na parte que se refere a Mestre Bimba, sua Luta Regional e seus
alunos, pode, sem sombra de dúvida, ser considerado uma grande fraude
literária, um engodo destinado a promover, não a capoeira, mas o
“vale-tudo”, o “ultimate fighting”.
De minhas conversas com os Velhos Mestres da Regional, ficou afinal
a nítida impressão de que deixavam um recado ao Lacé: Fique doravante
certo de que tudo o que você escrever sobre a Bahia, Mestre Bimba e sua
Regional será examinado sob as lentes de alta precisão da busca da
verdade. Os conselhos que você recebeu à pág. 37 de seu livro, no
sentido de que “ninguém vai conferir, todos vão ficar
impressionados”, e também: “Mesmo que o engodo fique patente, não
terá a menor importância”... ou: “Além do que ninguém se dará ao
trabalho de averiguar a fidedignidade de tais referências” são uma
ofensa à dignidade literária. É uma confissão da molecagem literária
a que você se presta. “Quanta sabedoria, Deus do Céu”. Aí está,
para o leitor de bom senso, um retrato dos seus objetivos. Fique certo de
que, tendo você se pronunciado leviana e mentirosamente sobre a Bahia,
Mestre Bimba, sua Luta Regional e seus alunos, estaremos de plantão para
desmoralizar tais procedimentos, sempre que venham a ocorrer.
Ainda não terminamos, caros leitores, tem mais. À pág. 224, após
declarar que entrevistou Bimba em 1965, num seu programa na Rádio Roquete
Pinto, no Rio de Janeiro, elogiando as vitórias do Mestre Bimba em
disputas com outros lutadores, Lacé “doutrina” levianamente, como
sempre faz, ao dizer que para as vitórias do Mestre tem uma outra versão,
e que o êxito nos seus confrontos devem-se, basicamente, a dois fatores:
“1. Sua admirável assimilação de alguns bons aspectos da capoeira
utilitária do Rio de Janeiro (o que gerou forte reclamação de seus
oponentes) e 2. O nível não exponencial dos lutadores de jiu-jitsu que
teve de enfrentar (pois os melhores, por motivos óbvios, estavam no Rio
de Janeiro).”
Prezado leitor, fique como eu estarrecido com tamanha baboseira!
Primeiro: Bimba jamais enfrentou lutadores de jiu-jitsu... Ademais, que
besteira é essa, se não é puro bairrismo – por que é que os melhores
lutadores têm de estar no Rio de Janeiro? É dose pra elefante!
Bimba venceu, isto sim, todos os grandes capoeiristas de sua época
que se apresentaram para disputar com ele o título de Campeão, conforme
divulgado pelos jornais da época (vide Anexos 1 e 2, ao final do texto).
Quanto à suposta assimilação de aspectos da capoeira utilitária do
Sinhozinho por Bimba, seria o caso de darmos ao Lacé o título de campeão
da aleivosia e da mentira. Nem os velhos alunos do Bimba que ainda estão
vivos, nem os mais novos, nem mesmo qualquer dos capoeiristas do Brasil
ele respeita, ao dizer suas mentiras. Pobre Lacé! Prove o que diz. Suas
afirmações desmoralizadas, como se pode verificar no livro, são à base
de “deve ser”, “só pode ter sido”, “provavelmente”, passando
daí, por um passe de mágica (“mandinga literária”?) aos
“certamente”, “não há a menor dúvida” etc. Provar, que é bom,
nada, pois suas afirmações não estão alicerçadas em nenhum fato
convincente. Tentar insistentemente ligar a criação da Regional aos
modelos praticados nos métodos de Burlamaqui e Sinhozinho é uma
assertiva sem pé nem cabeça. Lacé irrita-se (pág. 250) com as frases
“capoeira é uma só”, “todo capoeirista Regional faz também
Angola”. Mais irritado ficará quando souber que a recíproca também é
verdadeira – só basta acrescentar a isso, tanto para o adepto da
regional como para o da Angola: “desde que se dedique com afinco, observando
atentamente os procedimentos de ambos os estilos”. É isso mesmo,
“mestre” Lacé, e, para seu desespero, aqui vai o testemunho de uma
pessoa chamada Vicente Ferreira Pastinha que, presumo (não sei se você
concorda), devia saber um pouquinho mais do que você sobre capoeira:
“A CAPOEIRA É UMA SÓ!”
“Eu, como um velho capoeirista, sentia-me
mal com o rumo que a capoeira se deslizava, não mais falavam em capoeira
Angola: só regional, os mestres já não eram famosos, aniavam(?) só os
dias de domingos, de qualquer forma que desejavam, parece sem corrigirem
os seus erros de estarem subjugados pelos caprichos da regional: que é
a mesma modalidade da capoeira Angola, não há modificação que faça
perder o seu precioso valor. É defesa de nossas integridades, dizia o
meu mestre quando ensinava-me...”
Vicente Pastinha
(transcrito do livro “A Herança de Mestre Bimba, Lógica e Filosofia
Africanas da Capoeira”, de Mestre Decanio – pág. 37. Tais declarações
estão contidas nos Manuscritos de Mestre Pastinha.)
E tem mais um pouquinho, Lacé, para cansar a sua mediocridade em
capoeira. Esta abaixo é do Caribé, que freqüentou Pastinha e Bimba. Não
sei se você já ouviu falar nele...
“A CAPOEIRA É UMA SÓ!”
“Cada mestre é um estilo.
A Capoeira é uma só e
Quem comanda o jogo é o
Berimbau com os mesmos
Toques e cantigas.”
Caribé
(transcrito do livro “A Herança
de Mestre Bimba, Lógica e Filosofia Africanas da Capoeira”, de Mestre
Decanio – pág. 36.)
Desculpe o mau jeito, mas quem fala e escreve o que quer, ouve
e lê o que não quer... Seria interessante que houvesse de sua parte, Lacé,
maior equilíbrio emocional e isenção de ânimo no trato dos assuntos
referentes à capoeira, caso contrário você jamais conseguirá
satisfazer a sua “necessidade de brilhar e de ser consagrado no mundo
acadêmico e capoeirístico”...
Vamos agora dar um pequeno passeio com o livreto do ODC,
copiado pelo Burlamaqui e tão falado pelo Lacé. A última folha do
livreto (pág. 17), é claro que se trata de uma montagem, ou melhor, um
acréscimo de preciosas informações. E, agradável surpresa, a participação
naquela reprodução de algumas pessoas, dentre as quais o nosso ilustre
André Lacé. Ali se diz que Zuma (Burlamaqui) teve acesso ao método do
ODC e, com máquina datilográfica, copiou o que lá estava escrito, não
podendo, é claro, copiar as figuras que ilustravam o método.
O
original do ODC foi extraviado da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Zuma viu as figuras e, como todo bom observador apaixonado pelo assunto,
provavelmente gravou-as na mente. Ressalte-se que ele pelo menos
datilografou o que estava no livro. Anos depois, publicou o seu método
(1928), enriquecido por vinte e oito gravuras de golpes de capoeira, dos
quais, ele afirma, apenas três eram de sua autoria. Pois bem, jamais se
ouviu ou leu qualquer crítica ou comentário do André Lacé sobre as
interrogações seguintes, que nos vêm à mente ao analisarmos esse
material:
1.
Burlamaqui realmente copiou o método do ODC, na Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro?
2. Não podendo copiar as figuras que o ilustravam, será que as
gravou mentalmente?
3. O método ODC tem como data de sua segunda edição o ano de
1907. Burlamaqui, em 1928, publicou o seu método e relacionou 28 golpes,
explicitando que os golpes da capoeiragem são muitos e que da relação
em pauta apenas três são de sua autoria. Por que não especificou a
origem dos vinte e cinco golpes restantes, em vez de generalizá-los como
sendo originários da capoeiragem? Será que os golpes do ODC não
estariam incluídos nessa relação?
Focalizemos mais um curioso fato, envolvendo o Mestre Burlamaqui:
no livro “Capoeira, os Fundamentos da Malícia”, do ilustre
Mestre Nestor Capoeira, acha-se registrada esta “pérola” sobre o
Mestre Burlamaqui (pág. 87):
“O Rubem Braga publicou um artigo na Revista
Nacional baseado no trabalho do Burlamaqui, e foi isso que me levou a
escrever um outro artigo (isto já em 1983) contestando aquelas informações”,
conta Jair Moura. “Inclusive, eu estive na casa de um dentista, aqui em
Copacabana, que era parente do Aníbal (Burlamaqui), e este disse que,
pouco antes de morrer, o Burlamaqui tinha-lhe confidenciado que não
assinaria mais aquele livro (de 1928), mas o mal já estava feito.”
(o grifo é meu)
Cabe aqui uma observação: Por que tal arrependimento? Que mal ele
praticou ao publicar o método? Seria algum drama de consciência?
Acredito que as indagações acima deveriam ser alvo de uma pesquisa séria,
visando esclarecer a verdadeira origem do método de Burlamaqui, o
desaparecimento do método do ODC da Biblioteca Nacional, bem como o das
figuras que o ilustravam...
Vejamos agora a tão decantada, apaixonada e desinformada versão
do Lacé referente à “influência” do Rio de Janeiro sobre a Bahia.
Tenho observado que Lacé não aprecia muito os registros,
depoimentos e documentos que contrariam os seus propósitos. No caso
presente, aqui vão algumas informações sobre a versão acima referida:
no ano de 1549, o primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Souza,
constrói a cidade de São Salvador, na Bahia de Todos os Santos, para ser
a capital da colônia. Além de sede política e administrativa, Salvador
funciona como pólo de desenvolvimento econômico de toda a região, com açúcar,
tabaco e algodão nos séculos XVI e XVII, ouro e diamantes no século
XVIII e tráfico de escravos até meados do século XIX. Em 1763, com
cerca de 60 mil habitantes, Salvador perde a condição de capital para o
Rio de Janeiro. A cidade de Salvador, Lacé, foi a capital da colônia
durante 214 anos, isto é, dois séculos e quatorze anos.
Registre-se aqui o tráfico de escravos que, depois de aportarem em
Salvador, eram selecionados e enviados para serem comercializados em
outras regiões, inclusive na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Vale agora citar dois pesquisadores – estes sim – de peso: se
você, Lacé, tivesse o saudável hábito de levar a sério e conferir as
obras citadas nos livros sobre capoeira (ao invés de buscar a fama fácil
e sair escrevendo bobagens a torto e a direito), teria atentado, no
excelente trabalho de pesquisa histórica do professor doutor Carlos Eugênio
Líbano Soares (conhece, Lacé?) “A Negregada Instituição – Os
Capoeiras na Corte Imperial, 1850-1890” (Ed. Access, Rio de Janeiro,
1999, pág. 61), para a citação da obra “Tia Ciata e a Pequena África
no Rio de Janeiro” (FUNARTE, 1983), do doutor Roberto Moura, outro
verdadeiro pesquisador, Phd. pela Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo. Nesse trabalho, Roberto Moura (que é carioca,
diga-se de passagem) relata com extrema seriedade (o que não é do seu
feitio, Lacé) a influência dos hábitos, costumes e tradições trazidos
pelos baianos para o Rio de Janeiro. É, no dizer do autor, “uma história
que começa na Bahia para se transferir para o Rio de Janeiro.”
Vejamos
algumas das preciosas informações contidas neste maravilhoso livro sobre
a “Tia Ciata”:
“Salvador, antiga capital, é no início do século XIX uma
surpreendente cidade do mundo colonial português.” (...) “Lá se
deflagram as grandes revoltas urbanas, conflitos que legam à sociedade
brasileira da Primeira República o temor de levantes negros nas capitais,
expresso pelas instituições policiais por uma duradoura vigilância e
intolerância.” (pág. 19)
“A Assembléia Provincial do Rio de Janeiro chega a pedir em 1835
que se impeça o desembarque de escravos da Bahia e principalmente o de
libertos de qualquer estado na capital, já que esses eram considerados
os fomentadores das revoltas.” (pág.
31)
“Francisco Gonçalves Martins,
chefe da polícia na época da revolta malê, se torna presidente da província
da Bahia de 1849-53 e, com sua obsessão pelo perigo africano, defende
limitar o escravo à esfera da agricultura e coagir os libertos a voltar
para a África. Durante sua gestão amplia as exclusões dos escravos a
ocupações urbanas, proíbe aos negros o aprendizado de determinados ofícios,
estabelece impostos aos artífices urbanos, e aumenta a insegurança com a
ação repressiva da polícia, que enche as prisões com libertos, aumentando
as levas de forros que partem, alguns para a África, muitos para o Rio de
Janeiro.” (pág. 32)
“A província do Rio de Janeiro, de
119.141 escravos em 1844, no início da década de 1870 passa a contar com
mais de trezentos mil, dos quais grande parte havia chegado da África
através dos portos do Nordeste, muitos vindos de Salvador...” (pág.
28)
“Mas é em Salvador que se
redefine o calendário cristão num novo ciclo de festas populares, quando
nos santos católicos seriam encontradas correspondências e identidades
associadas aos orixás nagôs, homenageados não só em cerimônias
privadas, mas, a partir de então, com toda exuberância na festa ‘católica’,
nas ruas, nas praças e mesmo nas igrejas da cidade.” (pág.
35)
“... cheganças, bailes,
pastoris, bumba-meu-boi e cucumbis, que saíam à rua revelando, mesmo em
meio da dura repressão provocadas pelas insurreições dos escravos, a
progressiva afirmação do negro na cidade. Os cucumbis baianos
reapareceriam no Rio de Janeiro anos depois, em ranchos negros onde se
cantava e dançava música africana em procissões que atravessavam os
bairros populares, só interrompidas pelas luzes da manhã.” (pág.
36)
“Nos cantos das nações se
tornam comuns as giras dos batuqueiros onde vai surgir o samba baiano,
motivos desenvolvidos pelo coro e contestados pelos solistas: o samba de
roda. Orquestra de percussionistas com tamborins, cuícas, reco-recos e
agogôs. Batuque era o nome genérico que o português dava às danças
africanas suas conhecidas ainda no continente negro, que na Bahia
tomam a forma de uma dança-luta que ocorria aos domingos e dias de festa
na praça da Graça e na do Barbalho, apesar da constante vigilância
policial. Entretanto, se o conde dos Arcos, governador da Bahia no início
do século, defendera a libertação dos batuques de nação, argumentando
que estes ‘renovariam as idéias de aversão recíproca que lhes eram
naturais desde que nasceram, e que todavia se vão apagando pouco a pouco
com a desgraça comum’; com a revolta de 1814, a permissão do conde dos
Arcos é revogada e os batuques são novamente proibidos, assim como a
permanência de negros em tendas, botequins e tavernas.” (pág.
41)
“No século XIX, com o
desenvolvimento da cultura do café no Sudeste, se manteria o fluxo
escravagista para o Rio de Janeiro, e muitos negros viriam do Nordeste
para as plantações do vale do Paraíba como para trabalhar no interior
paulista. A escravatura urbana da nova capital, tão bem documentada pelo
trabalho de Debret, começa a perder importância com a transferência
maciça de negros vendidos para as plantações. A população negra do
Rio de Janeiro só voltaria a crescer já na segunda metade do século XIX
com a decadência do café no vale do Paraíba e com as chegadas sistemáticas
dos baianos que vêm tentar a vida no Rio de Janeiro.” (pág.
43)
“A
Abolição engrossa o fluxo de baianos para o Rio de Janeiro, liberando os
que se mantinham em Salvador em virtude de laços com escravos,
fundando-se praticamente uma pequena diáspora baiana na capital do país,
gente que terminaria por se identificar com a nova cidade onde nascem seus
descendentes, e que, naqueles tempos de transição, desempenharia notável
papel na reorganização do Rio de Janeiro popular, subalterno, em volta
do cais e nas velhas casas do Centro.” (pág.
43)
“O grupo baiano iria situar-se
na parte da cidade onde a moradia era mais barata, na Saúde, perto do
cais do porto, onde os homens, como trabalhadores braçais, buscam vagas
na estiva. Com a brusca mudança no meio negro ocasionada pela Abolição,
que extingue as organizações de nação ainda existentes no Rio de
Janeiro, o grupo baiano seria uma nova liderança. A vivência de muitos
como alforriados em Salvador – de onde trouxeram o aprendizado de ofícios
urbanos, e às vezes algum dinheiro poupado –, e a experiência de
liderança de muitos de seus membros – em candomblés, irmandades, nas
juntas ou na organização de grupos festeiros –, seriam a garantia do
negro no Rio de Janeiro. Com os anos, a partir deles apareceriam as novas
sínteses dessa cultura negra do Rio de Janeiro, uma das principais referências
civilizatórias da cultura nacional moderna.” (pág.
44)
“Nos ranchos, cortejos de músicos
e dançarinos religiosos mas pândegos e democráticos, que já
anteriormente apareciam na Bahia, lutariam carnavalescamente para impor a
presença do negro e suas formas de organização e expressão nas ruas da
capital da República. A baiana Bebiana, irmã de santo da grande Ciata de
Oxum, é figura central da primeira fase dos ranchos cariocas, ainda
ligada ao ciclo do Natal, guardando em sua casa, no antigo largo de São
Domingos, a lapinha, em frente à qual os cortejos iam evoluir no dia de
Reis. Hilário (Hilário Jovino Ferreira, nascido no terceiro quarto do século
XIX em Pernambuco, de pais presumidamente forros, e levado para Salvador
ainda criança, só viria para o Rio de Janeiro já adulto, onde, graças
a seus excepcionais dotes, se tornaria uma das figuras de proa do meio
baiano), que se tornaria o principal criador e organizador dos ranchos da
Saúde, talvez o principal responsável pelo deslocamento dos desfiles
para o Carnaval, o que transformaria substancialmente suas características:
a festa profana passa a sugerir um novo enfoque musical e coreográfico,
se transferindo para a Cidade Nova, em torno da praça Onze, os pontos de
encontro, organização e desfile dos ranchos baianos.” (pág.
89)
“Tia Bebiana e suas irmãs-de-santo,
Mônica, Carmem do Xibuca, Ciata, Perciliana, Amélia e outras, que
pertenciam ao terreiro de João Alabá, formam um dos núcleos principais
de organização e influência sobre a comunidade. Enquanto as classes
populares, em sua maioria proletarizadas, sob a liderança inicial dos
anarquistas, se organizam em sindicatos e convenções trabalhistas,
grande parte do povão carioca que se desloca do cais pra Cidade Nova, pro
subúrbio e pra favela, predominantemente negro e mulato, também se
organiza politicamente, em seu sentido extenso, a partir dos centros
religiosos e das organizações festeiras. Assim, são essas negras,
que ganham respeito por suas posições centrais no terreiro e por sua
participação conseqüente nas principais atividades do grupo, que
garantem a permanência das tradições africanas e as possibilidades de
sua revitalização na vida mais ampla da cidade.” (pág.
95)
“Mas a mais famosa de todas as
baianas, a mais influente, foi Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata,
relembrada em todos os relatos do surgimento do samba carioca e dos
ranchos...” (pág. 96)
“A casa de João Alabá, de
Omulu, dava continuidade a um candomblé nagô que havia sido iniciado
na Saúde, talvez o primeiro do Rio de Janeiro, por Quimbambochê, ou
Bambochê Obiticô..., africano que chega a Salvador num negreiro na
metade do século XIX, junto com a avó da babalorixá Senhora, onde se
torna, depois de alforriado por sua irmã de nação Marcelina, um
influente babalaô.” (pág. 98)
“Na sala (da
casa de Tia Ciata), o baile onde se
tocavam os sambas de partido entre os mais velhos, e mesmo música
instrumental quando apareciam os músicos profissionais, muitos da
primeira geração dos filhos dos baianos, que freqüentavam a casa. No
terreiro, o samba raiado e às vezes as rodas de batuque entre os mais moços.
(...) As grandes figuras do mundo musical carioca, Pixinguinha, Donga (filho
de mãe baiana), João da Baiana (idem),
Heitor dos Prazeres (também filho de mãe baiana),
surgem ainda crianças naquelas rodas onde aprendem as tradições
musicais baianas a que depois dariam uma forma nova, carioca.”
(pág. 103)
“A casa da Tia Ciata se torna
a capital dessa Pequena África no Rio de Janeiro. (...) Assim, esse
grupo baiano se constituía numa elite nessa comunidade popular que se
desloca do Centro para suas imediações, forçada a se reestruturar a
partir das grandes transformações nacionais e
da reforma da cidade, referências de um grupo heterogêneo e caótico
onde se preservam e se misturam essas maiorias e minorias étnicas
nacionais e estrangeiras. Principalmente entre os negros, os africanos
e os baianos da nação iorubá, garantidos por suas tradições civilizatórias
e coesos pelo culto do candomblé, eram considerados uma gente distinta, a
cujas festas não era qualquer ‘pé-rapado’ que tinha acesso, e cujas
cerimônias eram vedadas aos de fora.” (pág.
106)
“Os conflitos e a modernização
expõem a antiga unidade do grupo e interferem nas suas formas
fundamentais de expressão. Se o candomblé baiano se mantém em algumas
casas, e mais freqüentemente de forma sincretizada nas macumbas que
aparecem nos morros, e depois na umbanda da classe média, os ranchos
desaparecem, renovando-se na forma moderna das escolas de samba. Os
descendentes dos primeiros baianos, afastados de um convívio tão
intenso, dispersos pela cidade, mantêm o justo orgulho de suas origens e
de seus antepassados, hoje consubstanciados nas modernas instituições
religiosas e carnavalescas, nas artes e no temperamento profundo do Rio de
Janeiro, para quem são tradição e referência.” (pág.
107)
“Já
depois da metade do século XIX, quando a festa (a Festa da Penha) passa
a se estender por todos os domingos de outubro, ao lado dos portugueses
que comiam e entoavam seus fados na grama, estimulados pelo vinho generoso
nos tradicionais chifres de boi ou pela cerveja preta ‘barbante’, começam
a se ouvir os sambas de roda dos negros animados pela ‘branquinha’
nacional, a se armar batucadas ‘em liso’ ou ‘pra valer’ jogadas
pelos capoeiristas, principalmente quando a noite caía e subia a
temperatura etílica da festa.” (pág. 108)
“‘Malandro não estrila’
era a palavra de ordem, a roda dos capoeiristas aberta depois da reza para
quem tivesse coragem e agilidade nas pernas. Ficam famosas algumas brigas
sérias, geralmente atribuídas aos negros pela polícia que intervinha
com sua costumeira violência, fruto não só da rivalidade entre os
malandros, mas também do contato difícil entre negros e portugueses,
rivais no mercado de trabalho braçal e sempre se encontrando empregado e
patrão no comércio carioca. Seja pelo temor que inspiravam os bambas
da Saúde, seja pelo repique do samba que vai pouco a pouco calando os
tambores brutos do Zé-pereira, os portugueses perdem presença na Penha
que por anos relembra um arraial africano.” (pág.
109/110)
“Para Tia Ciata e sua geração
de baianas-festeiras tradicionais, (...) a festa da Penha era o momento de
encontro de sua comunidade de origem com a cidade, desvendando para os
‘outros’ essa cultura que subalternamente se preservava e que era a
cada momento reinventada pelo negro do Rio de Janeiro. Mas sua morte, em
1924, encerra uma época.” (pág.
115)
Bem, quanto às influências do Rio de Janeiro
sobre a Bahia a que se refere “apaixonadamente” o Lacé sem qualquer consistência,
aí estão provas fiéis em contrário, e que mostram que após a vinda dos
baianos para o Rio de Janeiro, os seus hábitos, costumes e tradições é
que foram em grande parte assimilados pelo Rio de Janeiro. O brilhantismo
da festa da Penha com a presença dos baianos; os ranchos que precederam
a criação das Escolas de Samba; o primeiro samba gravado, “Pelo Telefone”,
nascido na casa da Tia Ciata, composto por Donga (carioca, filho de baiana)
e cantado por Sinhô (baiano); o candomblé, o batuque e a capoeira; pra
não falar nos gostosos quitutes disponíveis nos tabuleiros das baianas...
Vá estudar a história, seu Lacé, antes de escrever baboseiras. É só ler
o livro, e, quem sabe, talvez você aprenda a gostar da Bahia, que também
é Brasil, e como!
Finalmente,
sobre o “batuque”: estranha o André Lacé, à pág. 163 de seu livro, as
declarações de um aluno de Bimba, Jair Moura, que escreveu que a Luta
Regional Baiana “originou-se da mistura, da aliança, da união e da amalgamação
do batuque, então proscrito (proscrito?), e da capoeira, que tiveram seus
golpes aperfeiçoados pela extraordinária capacidade do mestre”.
Admito
que tenha havido inclusão de alguns golpes do batuque (luta-dança) durante
a criação da Luta Regional Baiana, como por exemplo a banda traçada (rasteira
em pé), e outras bandas. Mas discordo peremptoriamente (juntamente com
os velhos mestres) de que este mesmo batuque tenha servido de base para
a criação da Regional.
As
verdadeiras e incontestáveis informações sobre a criação da Luta Regional
acham-se contidas às folhas do Anexo 1 a este trabalho (entrevista do
Mestre Bimba) e no livro do Dr. Decanio, já citado, e lido pelo Lacé.
Com
relação ao “proscrito” posto acima pelo Lacé entre parênteses e seguido
de interrogação (na citação que fez do Jair Moura), cumpre esclarecê-lo
de que, segundo o livro “Tia Ciata e a Pequena África
no Rio de Janeiro”
(pág. 41), o batuque era praticado na cidade do Salvador – Bahia como
dança-luta, sendo proibido (proscrito) pelo Conde dos Arcos, então
governador da Bahia, em razão da revolta ocorrida em 1814.
Já
que estamos falando em batuque, seria de bom alvitre informar que a mãe
do Mestre Bimba, Dona Maria Martinha do Bonfim, lutava batuque, e o pai
dele, Sr. Luiz Candido Machado, era campeão desta dança-luta...
Prossigamos:
Impressionam, também, à pág. 163 de seu livro, as declarações do Lacé
a respeito de suas pesquisas sobre o batuque, samba duro e pernada, realizadas
em quase todo o Brasil e na África, e que o levaram finalmente à conclusão
de que aquilo que mais se aproxima da arte marcial é a nossa pernada carioca.
A página contém duas ilustrações, dois desenhos, um da pernada carioca
(Editora Três, 1935) e outro do batuque na África (Ilha de Reunião, Oceano
Índico).
É
uma pena que tão ilustre pesquisador ignore ou desconheça a prancha nº
16 de Rugendas, na qual se acha descrito em detalhes como os negros dançavam
o batuque no Rio de Janeiro (vide Anexo - Rugendas 3).
Na
Bahia, entretanto, era diferente, pois se tratava de dança-luta, conforme
explicitado à pág. 41 do livro “Tia Ciata – A Pequena África
no Rio de Janeiro”,
bastante citado aqui neste trabalho, livro que derruba por terra e arrasa
as mirabolantes e ridículas suposições do Lacé a respeito da influência
do Rio de Janeiro sobre a Bahia, no campo das tradições nacionais, àquela
época.
Quantos
lerem o livro “Tia Ciata” verificarão que, após a Abolição, o Rio de Janeiro
recebeu um fluxo enorme de ex-escravos baianos, que trouxeram e implantaram
seus hábitos, costumes e tradições.
Edison Carneiro, em seu livro “A Sabedoria Popular do Brasil” – Edições de Ouro, tece comentários sobre o
batuque e a pernada carioca. Explicita, no capítulo sobre o batuque, detalhes
de como era praticada na Bahia esta dança-luta, contando-nos inclusive sobre a expulsão dos
batuqueiros da Capital, Salvador, e sua ida para o interior. Fala também
sobre golpes, como: encruziada, raspa, baú, coxa lisa. Não há dúvida de
que o batuque praticado na Bahia era uma dança-luta.
Lacé
considera indefensável a versão do Jair Moura, e aconselha rever o livro
de Edison Carneiro – “A Sabedoria Popular do Brasil”.
Penso
que quem tem de rever o livro de Edison Carneiro é o Lacé. Ele leu e só
pode ter lido “afobadamente” o livro em questão. As págs. 101/106 ilustram
a “Pernada Carioca”, e as págs. 215/218 explicitam sobre o “Batuque”,
nos seguintes termos:
“O
jogo que, na Bahia, tomou o nome de batuque é a mesma pernada do Rio de
Janeiro. Legado do Angola, esse jogo foi expulso da Capital, existindo
agora apenas em pequenas localidades dos municípios de Cachoeira e de
Santo Amaro, no Recôncavo.”
Em seguida, cita o romance “O Alambique”
(1934), de Clóvis Amorim, que descreve rapidamente o jogo tal como o observou
o autor no interior de Cachoeira.
Não
sei se ofende ao Lacê, ou o deixa frustrado o fato de os baianos terem
trazido o batuque para o Rio, por volta de 1888, e implantado algumas
tradições no Rio Maravilha; teria o carioca, então, prático como é, apenas
juntado à sua tradicional malícia a banda (rasteira em pé), a cabeçada,
o murro e a tapona inesperados, sentindo-se muito bem aquinhoado com o
surgimento de tão eficiente defesa pessoal? Malgrado o desprezo que Lacé
vota à Bahia, eis aí uma excelente tese, para que ele possa se agigantar
no terreno da pesquisa. Vá fundo, Lacé, que você fatura e, quem sabe,
se redime ante o pessoal da terra do acarajé... Agora, tem um detalhe:
pesquisa é coisa séria, e deve estar alicerçada em depoimentos, registros
e documentos. As suposições iniciais são válidas, mas suas comprovações
é que as legitimam...
Versões
levianas e inconsistentes sobre a criação da Luta Regional (como a do
Lacé) desmoralizam-se com a leitura do Anexo 1 a este trabalho, que contém
uma entrevista do Mestre Bimba explicitando como criou sua luta, somando-se
a isto os detalhes pormenorizados externados por Mestre Decanio em seu
precioso livro “A
Herança de Mestre Bimba, Lógica e Filosofia Africanas da Capoeira”.
Eis aí, caros
leitores, é só. Sem pretender ter esgotado o assunto, ficarei por aqui.
Há muito mais o que criticar no livro do Lacé, mas não pretendo
estender-me, por hora.
Entre os anexos a este trabalho, presenteio os leitores com três
pranchas do célebre pintor Rugendas, à época do Império: a primeira,
de nº 27, retrata em 1830 a lendária Capoeira original que era
praticada em Salvador; a segunda, de nº 18, explicita em detalhes como
era o jogo de capoeira àquela época; e a 3º retrata o batuque.
Jamais
poderia encerrar este trabalho sem prestar ao Lacé uma justa homenagem
pela presença em seu livro (conforme o “inteligente” conselho de sua
esposa para que adotasse alguns procedimentos “literários” objetivando
aparentar erudição, supondo que ninguém iria conferi-los) de uma série
de citações latinas. Para tanto, tomarei emprestado um adágio do Mestre
Bimba que me foi transmitido por um seu antigo aluno, e que sempre se
destinava a “rebater” jocosamente qualquer ofensa dirigida a uma pessoa.
Eis o adágio, citado, primeiramente, em latim – o latim falado na Baixa
do Sapateiro: “Ad vistus secus merdae aderit
anus lavatum.” Tradução: “Já
viu cocô seco pegar
em bumbum lavado?”
Para o bom entendedor, meia palavra basta...
Carlos
Wagner (Astronauta)
e-mail: carloswagner@plusoft.com.br
ANEXOS:
ANEXO
(Bimba 1) – A TARDE – BAHIA, SEGUNDA-FEIRA, 16 DE MARÇO DE 1936:
Em
razão da má qualidade da reprodução do original, transcrevo fielmente
o texto da reportagem de “A TARDE”.
TRANSCRIÇÃO
DO ANEXO (Bimba 1) – MANTIDA A ORTOGRAFIA ORIGINAL:
Manchete:
“MESTRE BIMBA”, “CAMPEÃO DA CAPOEIRA” DESAFIA TODOS OS
LUCTADORES BAHIANOS
A “capoeira”, esporte exótico, mas interessante, com seu nostálgico,
mas sagaz e atilado, de golpes felinos, ultimamente está sendo praticada
na Bahia com manifesto interesse geral.
Até há pouco tempo não era tão cobiçado o curioso espectaculo.
De certa época a esta parte, entretanto, a “capoeira” está sendo apreciada
com enthusiasmo, fazendo parte, como números obrigados, de festivaes esportivos.
Há dias, noticiando uma dessas exhibições, pedimos ao seu campeão,
o mais conhecido delles, uma explicação ao publico, por isso que muita
gente não entende patavina dos segredos dessa arte singular de ataque
e defeza.
Foi por isso que, attendendo ao nosso appel’o, Mestre Bimba (seu
nome é Manoel dos Reis Machado) esteve hontem nesta redacção. Vinha dar-nos
as explicações pedidas. E estas são, sem dúvida, muito interessantes.
Disse-nos elle, pois:
– Há dezoito annos que ensino capoeiragem. Adaptei vários golpes
á chamada capoeira de Angola, praticada por meu mestre, o africano Bentinho.
Os golpes do jogo de Angola são estes: meia lua de frente, meia lua de
compasso (rabo de arraia), meia lua armada, aú pela direita e pela esquerda,
cabeçada, chibata, rasteira, raspa, tesoura fechada, balão, leque, encruzilhada,
calcanheira, encruzilhada e deslocamento. Destes golpes – proseguiu Mestre
Bimba – retirei dois: encruzilhada e deslocamento. E accrescentei os seguintes:
vingativa, banda traçada, balão em pé, balão arqueado, balão “colar” de
força, cintura desprezada, cintura de rins, gravata cinturada, tesoura
aberta, a benção, salta pescoço, sopapo, galopante, godeme, cotovello
e dentinho.
Para
evitar enganos e más interpretações e no intuito de tornar os encontros
de capoeiragem mais interessantes e mais violentos, todos os golpes e
???? de capoeiragem entrarão em jogo. Os adversários poderão se apresentar
com os golpes que conhecerem. Fica assim lançado o desafio aos que praticam
ou conhecem a capoeiragem, como também a qualquer outro luctador
(jiu-jitsu etc.). O que quizerem. Eu os enfrentarei com minha capoeira!
–
E
há golpes prohibidos na capoeira? – perguntamos-lhe.
– Em
verdade não deveria existir golpes prohibidos em capoeira, porque é uma
lucta instinctiva. Mas como se trata de um assalto cortez, serão considerados
golpes prohibidos: dedo nos olhos, pancada nos órgãos sexuaes, dentada
e puxamento de cabellos.
A
capoeira Angola não é para ser praticada em ring, mas com pandeiro e berimbáo,
porque todos os golpes obedecem, por dizel-o, aos sons desses instrumentos.
Ainda no dia 18 houve, no Parque Odeon, a exhibição entre Bahia
e Américo Sciencia, sem decisão. Por que: Simplesmente: capoeira Angola,
com os golpes determinados ou regulados pelo berimbáo e pelo pandeiro.
Mas a verdadeira capoeira é aquella com que a gente se defende e enfrenta
o inimigo! Pois então, em qualquer logar, sou atacado e vou esperar pelo
berimbáo para reagir? Nem berimbáo nem pandeiro! A coisa tem que virar
mesmo...
–
E sua lucta, naquelle
parque, com Zéy?
– Sahi vencedor
por 15 pontos contra 2 e não como foi noticiado. Esses pontos são assim
contados: cabeçada no aú (derrubada), 3; cabeçada no aú (attingida), 1;
cabeçada derrubada, 2; cabeçada attingida, 1; meia lua e armada na face,
1; meia lua e armada attingida, 1; calcanheira, 1; tesoura derrubada,
2; tesoura attingida, 1; balão açoitado, 2; balão arqueado, 2; colar de
força, ?; Fiz uma cabeçada no aú (atting.), uma cabeçada attingida, uma
meia lua e armada na face, duas meia luas e armada attingida, duas tesouras
attingidas, um balão açoitado e um colar de força. Zéy fez apenas uma
meia lua e armada attingida e uma tesoura atingida.
E mestre
Bimba, acompanhado de seu manager, deixou a redacção. Teem os leitores,
pois, uma preciosa explicação da capoeira e, ao mesmo tempo, fica lançado
o desafio do campeão bahiano aos demais lutadores.
__________________________________________________________________________________
ANEXO (Bimba 2) - DIÁRIO
DA BAHIA - SEXTA-FEIRA,
13 DE MARÇO DE 1936:
Em
razão da má qualidade da reprodução do original, transcrevo fielmente
o texto da reportagem do “DIÁRIO DA BAHIA ”.
Manchete:
O TÍTULO MÁXIMO DA CAPOEIRA BAHIANA
Subtítulo:
Bimba refuta as allegações de Samuel de Souza e promptifica-se a luctar
pela posse da almejada faixa
Esteve hontem em nossa redacção o conhecido capoeirista bahiano
Manoel dos Reis Machado, vulgarmente conhecido por Bimba.
Falando sobre o actual movimento d’aquelle
ramo de lucta, genuinamente nacional, uma vez que differe bastante da
capoeira d’Angola, o conhecido campeão referiu-se a uma nota divulgada
por um confrade matutino em que apparecia a figura do sr. Samuel de Souza.
De
Bimba, de referência aos tópicos publicados, ouvimos:
“ – Não me abracei ao título
de campeão, como se este fosse propriedade minha, entretanto, penso que
mais merecidamente ficará elle commigo que com o meu companheiro de
esporte, Maré, uma vez que pelos jornaes desafiei a todos os capoeiristas
deste Estado e somente subiu o “ring” o valoroso adversário Henrique
Bahia, que consegui derrotar ante numerosa assistência.
Maré,
como merecedor do título máximo, deveria apparecer naquella epocha e não
agora em noticiário posterior.
Resta
porem esclarecer o seguinte: – A capoeira d’Angola apenas poderá
servir para demonstrações rithmadas e não para lucta em que a força
caracterisará a violência, e a agilidade a Victoria.
Ao
som do berimbau e o pandeiro não podem medir forças dois capoeiras que
tentem a posse de uma faixa de campeão, e isto se poderá consta |