Jacareí – Capoeira em dose dupla

Homenagem a Mestre Paulo dos Anjos &
Encontro Feminino de Capoeira

Miltinho Astronauta
São José dos Campos
Maio/2004

No primeiro artigo da Série Coletânea da Capoeira em São Paulo, tivemos a oportunidade de falar um pouco sobre diversos mestres que fazem parte da história da Capoeira deste nosso Estado. Falamos inclusive do saudoso Mestre Paulo dos Anjos. Ele aprendeu a Capoeira Angola com Mestre Canjiquinha, que também foi angoleiro, mas da Bahia. Assim como outros angoleiros de sua época, Mestre Paulo dos Anjos não ensinou unicamente a Capoeira Angola. Todavia, nos últimos anos de sua vida, com a fase Pós-GCAP-80, ele se dedicava exclusivamente a ela .

Nosso artigo de hoje trata de dois eventos que ocorreram em março e abril de 2004, ambos em Jacareí, São Paulo, onde Paulo dos Anjos semeou sua Capoeira.

1. Filhos do Sol em homenagem a M. Paulo dos Anjos

O Vale do Paraíba conta hoje com diversos grupos de Capoeira que se instalaram no final dos anos 60 e início dos 70. Os mestres Lobão, Esdras Filho, Josias, Tinta Forte e Prego são alguns dos nomes que fizeram parte daquela época. Mestre Paulo dos Anjos veio para a mesma região no início dos anos 70.

Assim como aconteceu – e continua acontecendo – em todo o Brasil, alguns grupos e mestres que antigamente desenvolviam trabalhos em diversos estilos, passaram a dedicar-se a aprender unicamente a Capoeira Angola. Como exemplo, temos os excelentes trabalhos que hoje são desenvolvidos pelos Mestres Jequié (Ubatuba), Dominguinhos (São Sebastião) e Raimundinho (Jacareí). Eles seguem os ensinamentos de Paulo dos Anjos. Ou, como os angoleiros gostam de dizer, são da linhagem de Mestre Paulo.

Mais recentemente, o Contramestre Saci, durante muito tempo aluno de Mestre Lobão, passou a integrar a família de Mestre Paulo, por intermédio da Escola de Capoeira Angola Raiz Negra, de M. Dominguinhos.

Já participei de diversos eventos promovidos pelos angoleiros citados acima. Graças ao prestigio – e elevada amizade com seus camaradas –, muitos são os amigos que têm visitado seus espaços. Só para citar alguns exemplos: M. Marrom (Rio), M. Camaleão (Rio), M. Angolinha (Rio), M. Formiga (Niterói/RJ), M. Zequinha (Piracicaba), M. Jogo de Dentro (Campinas/Sampa), M. Cláudio (Feira de Santana – BA), M. Careca (Sampa), M. Roxinho (Lins e BA) e M. Jaime de Mar Grande (BA). Quem conhece a comunidade de Capoeira Angola em São Paulo sabe que a presença destes mestres já é um “certificado”, reconhecendo que os discípulos de Paulo dos Anjos estão fazendo um excelente trabalho em prol da Capoeira Angola.

Através de um email-circular, Mestre Raimundinho convidou os Capoeiras do Vale e região para participarem de mais uma homenagem ao Mestre Paulo dos Anjos, por ocasião do 5º aniversário de seu falecimento. Os Mestres Raimundinho e Zé Leonato têm feito tal encontro por diversos anos consecutivos, sempre no mês de março.

Tenho observado que pouco a pouco, e de maneira natural, os angoleiros da Capital, do Interior e do Vale do Paraíba estão se aproximando cada vez mais. O que, diga-se de passagem, é ótimo! Com isso, as diversas escolas estão trocando experiências, criando novos veículos de comunicação entre elas e, também, expandindo o círculo de amizades.

Mestre Raimundinho faz questão de deixar claro que sua “casa” é para receber os amigos que queiram vadiar, independentemente do trabalho que cada um desenvolva em suas escolas. Ele, seu Raimundo, também deixa os visitantes se sentirem bem à vontade, participando da bateria, tocando, cantando, jogando e se divertindo.

O evento aconteceu nos dias 27 e 28 de março, e contou com representantes dos seguintes grupos: Filhos do Sol (Raimundinho e Zé Leonato), Rei Zumbi (Zé Baiano e CM Giló), Raiz Negra (Dominguinhos, CM Noel e CM Saci), Irmãos Guerreiros (M. Baxinho e CM. Marrom-Sampa), Ngolo (Prof. Marajó e Lucas), Negaça (Prof. Zelão, Ratão, Roberto e alunos – Sampa), Anjos de Angola (M. Alcapone), Sete Cordões de Ouro (M. Aruanã) e Aroeira Brasil (Prof. Wilson).

No sábado, a vadiação começou às 16h00 e rolou até às 22h30. Já no domingo, na praça do Mercado Municipal, a capoeiragem aconteceu entre 10h00 e 13h30. Ao terminarem de vadiar, os capoeiras foram para a casa do Raimundinho comer um Feijão gordo, e “papoeirar”  mais um pouco.

Como diz Mestre Formiga, Angoleiro de Niterói-RJ, “Vadiar é bom; entre amigos, melhor ainda”.

2. Encontro Feminino de Capoeira – a atitude dos capoeiras em pauta!

Não é novidade para nós, brasileiros, que vivemos em uma sociedade um tanto sexista. Há os que negam. Como negam também que exista o racismo e outras formas de discriminação.

Por e-mail, recebo diversas cobranças de um relatório sobre o resultado do primeiro - esperamos que não seja o último - Encontro Feminino de Capoeira do Vale do Paraíba e Litoral Norte, ocorrido no dia 24 de abril, em Jacareí-SP. Inclusive, Mestre Lacé comenta que é habito dos capoeiras realizarem “primeiros eventos”, mas se esquecem dos segundos, terceiros etc.

A respeito do relatório, tenho certeza de que tanto a equipe que realizou o evento, bem como as próprias mulheres-capoeiristas já estão tratando de fazê-lo. Entretanto, vamos a alguns comentários.

O evento, que reuniu mulheres que fazem a Capoeira acontecer no Vale e Região, foi uma iniciativa do Centro Cultural de Capoeira Aroeira Brasil, sob a batuta dos professores Wilson e Pastor, de Jacareí. Excelente trabalho!

A Programação contou com aulas de maculelê, dinâmica de grupo, capoeira regional, movimentação acrobática e angola. As responsáveis pelas atividades foram as professoras Bina (Besouro Mangangá), Josi (Ngolo) e Moranguinho (Capoeira Vida).

Fez também parte da programação uma palestra-debate, cujos temas abordados foram: A Mulher na Capoeira, Discriminação da Mulher na Capoeira (inclusive por pais e namorados), Assédio às Mulheres na Capoeira, Gravidez e Capoeira e, também,  A Profissionalização da Mulher Capoeirista.

O mais importante é que todas as participantes deram suas opiniões a respeito dos assuntos discutidos.

O respeito, o carinho e a admiração demonstrados pelas capoeiras para com suas professoras foi singular. Também pudera, pois, em termos de Capoeira e luta pelos direitos da mulher, elas - Bina, Josi e Moranguinho - não estão pra brincadeira.

Foram aproximadamente 50 participantes, representando diversas cidades da região: Jacareí, São José dos Campos, Taubaté, Igaratá, Pinda, Cachoeira Paulista, Jaguariúna e Serra Negra.

Apesar dos homens não participarem ativamente do encontro, estiveram presentes diversos mestres e professores, entre eles Narciso, Papagaio, Serjão Pataxó e Lima. A eles restou, quando devidamente autorizados, responder o coro e, eventualmente, tocar algum instrumento.

Mas quem brilhou mesmo foi a Mulher! Tomaram conta da Roda, mantendo o axé e o respeito. Mestre Raimundinho apareceu só no finalzinho, mas foi para pegar a esposa e a filha, que também fizeram parte do time capoeirístico feminino.

Para ficar registrado, as mulheres deram um outro exemplo. Participaram juntas, sem nenhuma distinção, tanto regionaleiras quanto angoleiras. E tudo correu na maior Paz e Harmonia.

Sei que todo homem qué
Os carinhos de uma mulhé
Mas tem que ser dedicado
Tem que ter o seu respeito
Dar carinho e cafuné
 
Hoje o mundo está mudado
Falo com propriedade
Homem não tem compromisso
Não faz mais por ser fiel
Esta é a pura verdade
 
Mas a mulher também deve
A si dar o seu valor
Não facilitar ao homem
Ti levar ao cobertor
Rezar pra Nossa Senhora
Que tem seu manto sagrado
Livrar-te do desrespeito
E perdoar nossos pecados
Câmara... iê vamo simbora
(Ladainha – Miltinho Astronauta)

3. Lançamento de CD – Aroeira Brasil

Por fim, gostaríamos de deixar registrado que o Centro Cultural de Capoeira Aroeira Brasil lançou seu segundo CD, com canções inéditas. As músicas são cantadas pelos professores Wilson e Pastor. Mestre Raimundinho, que tem um cantar cheio de Blue Note, participou como convidado especial. A arte gráfica ficou por conta do Capoeira Pai-Santão (aroeira-brasil@bol.com.br), que também é o fotógrafo oficial do Aroeira.

O título do CD ficou registrado como "DEUS" O Único Mestre Que Não Falha.

A cada dia que passa, percebemos a importância que muitos mestres têm na história da Capoeira em São Paulo, e que alguns estavam passando injustamente despercebidos. Como disse anteriormente, nosso trabalho está caindo em terra – Roda – fértil! Axé!

Mestre Cosmo, esteja onde você estiver,
saiba que vou dedicar minha vida inteira pela Capoeira,
em continuidade à tua obra, teus sonhos,
tuas realizações e família. Laroie!